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	<title>OROBORO Comments</title>
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	<description>Quadrinhos e outros bichos</description>
	<pubDate>Wed, 18 Nov 2009 20:22:54 +0000</pubDate>
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		<title>by: Rynaldo Papoy</title>
		<link>http://oroboro.blogsome.com/2006/11/21/zarabatana-nova-editora-de-quadrinhos-no-mercado-nacional/#comment-17</link>
		<pubDate>Thu, 08 Oct 2009 01:37:11 +0100</pubDate>
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					<description>(Nota do dono do blog: Rynaldo, achei engraçado você postar seu romance num blog que está inativo há quase três anos, mas, vá lá!)

=====================

Olá, tudo bem? Estou enviando minha coletânea de contos para sua apreciação. Infelizmente, não tenho como mandar pelo correio, pelo fato de não dispor de nenhum recurso financeiro para isto. Espero que gostem. Ao final da coletânea, há dados autobiográficos. Abraço e muito obrigado!

DESTILADO DE CÉREBRO DE ZUMBI
autor: Rynaldo Papoy
DESTILADO DE CÉREBRO DE ZUMBI
Método desenvolvido pelo paulista Joel Caetano.
INGREDIENTES
10 kg de cérebro de zumbi in natura [quanto mais envelhecido, maior o teor alcoólico] para 1 litro de destilado [observação: evitar cérebros de zumbis de pessoas que utilizavam medicamentos psiquiátricos ou drogas].
100 gramas de fermento sacharomices e 1 kg de cevada.
100 litros de água.
50 ml de saliva de zumbi.
MODO DE PREPARO
Ferver os ingredientes do mosto a 100 graus por 10 dias.
Se preferir um destilado mais suave, destile o cérebro de zumbi por mais duas vezes.
Acrescente 10g de cocô de bebê zumbi [com até 30 dias de “vida”], sementes de cacau e espinhos de pequi.
Deixe envelhecer em barris de pau-brasil por, no mínimo, quatro anos.
O destilado deve ser tomado puro, de preferência gelado, num copo tipo “shot”.
CURIOSIDADES:
-  Joel Caetano leiloou na Inglaterra o “Super Old Special Zombie Caetano”, produzido com cérebros de zumbis que tinham entre 90 e 120 dias de existência, produzindo o mais poderoso Destilado de Cérebro de Zumbi do mundo, cujas garrafas chegaram a mais de 10 mil euros e teor alcoólico de 97°.
- Está fazendo muito sucesso entre os jovens, nas baladas, o Ice Zombie, produzido nos EUA, que possui 75% de suco de cramberry.
- O produtor espanhol Miguel Angel Vivas produz blendeds de destilados de cérebro de zumbis que fazem muito sucesso em baladas da Europa, onde são tomados on-the-rocks ou no preparo de coquetéis.
- O mais consumido coquetel com Destilado de Cérebro de Zumbi em Nova Iorque chama-se “Britney Spears”. Os ingredientes são 50 ml de Caetano ou Vivas, uvas passas amassadas com sêmen de cavalo e açúcar ou adoçante, angostura e completado com club soda.
- Nas baladas mais populares das periferias brasileiras faz muito sucesso um destilado de cérebro de zumbi clandestino, cuja dose custa apenas R$ 2,00, mas como o sabor é terrível, o pessoal costuma fazer caipirinhas dos mesmos ou simplesmente mistura com tubaína. A polícia suspeita que estes destilados clandestinos são produzidos com zumbis cultivados especialmente para o preparo da bebida.
- Há uma informação não-confirmada de que os russos estariam tentando produzir o destilado com cérebros de esturjão transformados em zumbis. Mas o Professor Johann Schlinder, da Universidade de Munique, especialista em zumbis, garante não haver provas da existência de zumbis não-humanos.
- Devido à queda nas vendas de uísques no mundo inteiro, graças às altas vendagens do Destilado de Cérebro de Zumbi, a Jack Daniels está criando a Zombie Jack, um destilado de milho e cérebro de zumbi.
- O Ministério da Tequila do México ofereceu R$ 30 milhões de dólares para quem conseguir desenvolver uma espécie zumbi do verme do mescal.
Mais detalhes em: 
Sobre o destilado: 
“A Origem, Produção e Comercialização do Destilado de Cérebro de Zumbi”, de Valdir Medori ou “Destilado de Cérebro de Zumbi, Mais Uma Invenção Brasileira que Conquistou o Mundo”, publicado pelo Ministério da Agricultura do Brasil.
Sobre zumbis: 
“Metabolische Aspekte der Umwandlung der Männer in den Zombien”, por Professor Johann Schlinder, ainda sem tradução em português.


ACIMA DE QUALQUER SUSPEITA
	- Posso deixar minha filha com você?
	Era Ganemélia. Mineira. De Nanuque.
	Veio para São Paulo e era garçonete. Teve uma filha mas não se lembrava com quem. Num período de muitos relacionamentos. Um deles era o pai mas ela não iria pedir DNA de oito homens. E eram todos muito parecidos, a pequena Júlia não se parecia com nenhum e com todos, ao mesmo tempo.
	Ganemélia trabalhava de terça a domingo. Sua filha ficava com sua prima, no Jardim Palmira.
	Era uma segunda. A agência telefonou e solicitou Ganemélia com urgência para uma festa. R$ 50,00. Era dinheiro. Ligou na casa da prima Jandorina, mas só deu caixa postal. Deveria estar na igreja, possuída pelo demônio, como sempre.
	Seu vizinho à esquerda era um homem muito decente. Morava sozinho, só usava terno [sempre o mesmo] e freqüentava a Igreja de São José, no Jardim Paulista. Católico carismático. Tinha uma banca de livros usados, no centro de Guarulhos. 
	Quem mais, no Jardim Betel, tomaria conta de Júlia, cinco anos?
	- Claro, claro, vá com Deus. – respondeu Seu Rosalvo, pegando Júlia no colo, por cima do muro.
	Ganemélia só retornaria pela manhã. Festa na Vila Olímpia, em São Paulo.

	Rosalvo e Júlia assistiam ao Jornal Nacional.
	Quieta, delicada, com uma bonequinha no colo.
	Rosalvo começou com um beijinho em seus cabelos.
	Colocou Júlia em seu colo e passou a mão em suas pernas.
	Levantou seu vestidinho vermelho e contemplou sua calcinha rosa cheia de ursinhos.
	Rosalvo retirou cuidadosamente a calcinha de Júlia e mais suavemente ainda passou os dedos nas carninhas tenras da pequena vulva da menina.
	- Tá fazendo cosquinha. – ela protestou.
	Rosalvo deitou Júlia no sofá, abriu suas pernas e lambeu o inocente órgão sexual da menina até mais de 1 h da manhã. E ela havia dormido por volta das dez horas.

	Pela manhã, Ganemélia chegou, arrasada de cansaço, como sempre e R$ 50,00 mais rica. Ou R$ 40,00, descontando o dinheiro da condução, paga por ela mesma.
	Bateu palmas no portão do Seu Rosalvo.
	Ninguém respondeu.
	Entrou. Bateu na porta. Nada.

	A polícia chegou às 7h14m. 
	Arrombaram a porta.
	Quando Ganemélia viu Júlia, desmaiou.
	Sobre o sofá, nua, coberta de sangue, com um enorme orifício no lugar da pequena vagina.

	Rosalvo foi preso no Terminal Rodoviário do Tietê, quando pegava o ônibus para o Acre. Mas ela era paulistano e não conhecia ninguém lá. Só queria fugir para bem longe.
	Foi condenado a 30 anos de prisão por homicídio doloso, lesão corporal dolosa e estupro, com todos os agravantes.
	Após uma tentativa de suicídio, ingerindo inseticida, Ganemélia passou a freqüentar um ambulatório de saúde mental, três vezes por semana e tomar um tarja preta.
	Mas ela queria mesmo era voltar para Nanuque.

	Quanto a Rosalvo, ma Penitenciária de Guarulhos, masturbava-se lembrando da xoxotinha da maravilhosinha Júlia.
	Só lamentava tê-la matado. Queria tê-la deixado viva para chupar sua bocetinha mais vezes e só fodê-la quando chegasse à adolescência, assim lá pelos 12 anos.
	Por enquanto e pelos próximos 30 anos, teria que se acostumar a lamber outros órgãos e sofrer em si próprio o que fez a menininha sofrer.
	Sem falar nas porradas e na solidão eterna.

BODAS DE MERDA



Um casal de velhos sentados numa varanda.
Sente-se um terrível fedor de merda.
A velha olha para o velho e pergunta:
- Meu velho, fui eu ou foi tu que cagou nas calças?
O velho olha para ela e responde:
- Tanto faz, minha velha...

BRUNHILDO

	Brunhildo. Este era o nome dele, que tomou uma decisão. Iria matar alguém naquele domingo de manhã. 
	A coisa começou de repente, por volta da meia-noite. Uma irresistível, incontrolável vontade de matar uma pessoa, sem que encontrasse origem alguma para esta vontade.
	Não sentia qualquer obstáculo ético, remorso, pecado, pena ou nojo. Iria enfiar a faca em alguém, pois era a única arma que possuía. Pensando bem, também poderia usar as mãos, mas talvez as mãos não fossem suficientes.
	Não estava preocupado com o depois. Se fosse preso ou condenado espiritualmente, por Deus ou coisa parecida, nada disso lhe causava a menor objeção em seu plano de retirar a vida de uma pessoa naquele domingo de manhã.
	A maldade ou violência jamais havia passado por sua cabeça. Tem gente que é mal sem ser violenta e gente violenta que não é mal. Ele nunca foi uma coisa nem outra. Fez até uma doação para as Casas André Luiz, próxima a sua casa no Parque Continental, em Guarulhos.
	5h30m da manhã era um bom horário.
	Ele saiu de casa com a faca guardada sob um casaco. Era uma faca velha, deliberadamente escolhida por não ser a mesma faca utilizada para se fazer comida. Era quase um instrumento utilizado em construção civil, pois ele se lembrava de ter cortado uns fios com ela, nada mais do que isto. Não estava afiada mas continuava uma boa faca para se matar alguém, ele pensava.
	Também não se considerava um psicopata, daqueles que precisam matar alguém para se sentir bem ou esquizofrênicos que matam porque receberam ordens de alguém ou algo imaginário, como uma acelga. 
	Pois é, uma acelga. Esta imagem lhe trouxe um sorriso aos lábios. Já pensou alguém dizer que teve que matar a outrem por ordem de uma acelga?
	Seria curiosidade? Não, também não era curiosidade, pois já tinha visto gente morta antes e se enojou tanto quando qualquer outra pessoa.
	Ficou aborrecido por estar tentando analisar a si próprio e decidiu simplesmente cometer o ato, sem mais delongas.
	As pessoas do bairro ficariam impressionadas.
	Brunhildo tinha um nome esquisito mas era uma pessoa normal. Fiscal de ônibus, 47 anos, torcedor do São Paulo, casado, pai de três filhos dentro do casamento e um fora, tinha casa própria construída por ele mesmo. Ia à missa uma vez por mês, quando não estava com preguiça de andar três quadras até a igreja mais próxima.
	Frio. Uma leve garoa. Um chuvisco, na verdade. Outono, quase inverno.
	Não iria escolher a vítima, mas presumia que naquele horário encontraria no máximo donas de casa comprando pão na padaria ou um adolescente retornando da balada ou algum garçom coitado que ficou uma hora esperando o ônibus na Estação Tucuruvi.
	Ou então... algum velhinho levando um cachorro vira-lata para cagar. Lá vinha ele, descendo a rua. 
	Brunhildo se escondeu atrás de um muro. 
	Quando ouviu passos, retirou a faca da cintura. 
	No momento em que o velhinho, que ele já tinha visto e se chamava Aderbal, Oduval, Edernal, alguma coisa assim, passou por ele, Brunhildo desferiu o primeiro golpe.
	Uma facada vertical, na altura do ouvido, da esquerda para direita, que fez espirrar sangue pela calçada.
	O velhinho caiu, gritando uma espécie de socorro pouco audível, pois ainda estava surpreso e apavorado, segurando o corte com a mão direita, pois com a esquerda segurava a guia do vira-lata.
	Este começou a latir e tentar morder Brunhildo.
	Brunhildo posicionou-se com as pernas abertas sobre o velho e segurou a faca, com a ponta virada para baixo, com as duas mãos. Parecia que iria sacrificar um porco.
	Cravou a faca na altura do peito do ancião e a faca ficou tão bem cravada que ele não conseguiu soltá-la. 
	O pobre coitado deu um último urro e desfaleceu.
	O cachorro continuou latindo e tentando morder a calça e o sapato de Brunhildo, com seus dentes pouco úteis.
	Brunhildo afastou-se e ficou a dois metros do corpo, observando-o, sem que seu cérebro fosse tomado por qualquer pensamento, nem sequer satisfação, muito menos arrependimento.
	Brunhildo sentou-se no degrau de uma casa e ficou assim, esperando alguma coisa acontecer. 
	O que aconteceu foi que os vigilantes do bairro ouviram os gritos e aproximaram-se em suas motos. Sacaram suas armas e obrigaram Brunhildo a deitar-se no chão. 
	A polícia e o resgate foram acionados.
	Perguntaram a Brunhildo o porquê de ter feito aquilo e ele respondeu que não sabia.  Deu a mesma resposta a sua família.
	Foi encaminhado a um manicômio judiciário, onde permaneceu quatro anos. Foi condenado por tentativa de homicídio doloso, pegando a pena máxima de 14 anos, mas saiu em liberdade condicional após 4.
	Por sugestão da família, mudaram-se de cidade, pois se voltasse ao Parque Continental, em Guarulhos, seria morto.
	A vítima sobreviveu, pois não foi atingido nenhum órgão letal de seu corpo. A facada no pescoço pegou no músculo abaixo da orelha e a do peito pegou de raspão no coração e pulmão esquerdo, algo que foi resolvido com boas cirurgias.
	O velhinho, porém, nunca mais saiu com seu cachorro vira-latas às 5h30m da manhã de domingo. Nem nunca mais andou sozinho na rua
	Brunhildo freqüentou uma psicoterapia em grupo, num posto de saúde, por dois anos, onde praticamente não falava nada. Nunca mais teve vontade de matar ninguém e se tivesse, não iria tentar cometer o ato. 
	Decidiu por conta própria largar a terapia. 
Continuou trabalhando. 
Por volta dos 60 anos, foi abatido por um violento arrependimento. 
Um dia, chegou em casa mas antes de entrar, sentou-se no degrau de entrada e caiu num choro profundo, murmurando para si:
- Que merda que eu fiz... que merda que eu fiz...
CHOFER DE FROTA

Era uma sexta-feira fria e chuvosa. Estava eu procurando passageiros na Avenida São João. Esta hora sempre tem uma puta, um traveco que arranja um cliente e consigo uma corridinha de dez pilas, quinze pilas.
	Trabalhar em frota é assim. Ou roda de táxi o dia e a noite toda ou não paga as contas.
	Alguns peões passam a noite toda esperando um busão no ponto, que só vai passar quatro, quatro e meia da manhã. Dá dó. Mas a vida é assim mesmo. Estou de carro, abrigado da chuva. Meu táxi tem ar condicionado. Mas minha vida é uma merda do mesmo jeito. Deus sabe o que já passei como taxista.
	Assaltos, bêbados que não sabem onde vão. Um dia um bêbado que se dizia diretor de cinema... qual era o nome dele mesmo? Dioclécio? Dionísio? Uma coisa assim. Me fez rodar a cidade toda em busca sei lá do que. A corrida deu R$ 235,00. Ele simplesmente disse que não tinha como pagar. Chamei a polícia. Os policiais conversaram com ele, abriram a carteira dele, arrancaram R$ 50,00 e me deram. Falaram para eu voltar na casa dele no dia seguinte e tentar cobrar, caso contrário, deveria procurar o Tribunal de Pequenas Causas.
	Desisti. O tempo que perderia no tribunal me custaria mais do que R$ 200,00.
	A noite prosseguiu. O frio aumentou, junto com a chuva. 
	Pela terceira vez que passei naquele ponto perto da Love Story, a moreninha estava lá. Arrepiada de frio. Acabaria sendo assaltada por um nóia. Resolvi parar o táxi.
	- Para onde você vai?
	- Santana. 
	- Eu moro lá. Estou indo para casa. Eu te levo por R$ 10,00.
	- Tenho não, seu moço.
	- R$ 5,00?
	- Só tenho um bilhete de ônibus.
	- Olha, vou quebrar seu galho. Vou te levar de graça e outro dia que a gente se encontrar você me dá R$ 10,00.
	- Jura que vai fazer isto, moço?
	- An-han. Entra aí.
	- Ai, Jesus te abençoe.
	A morena entrou no táxi.
	Eu não morava em Santana, morava no Jardim São Luís. Rigorosamente do outro lado da cidade.
	- Ainda bem que tem gente boa nesse mundo. – ela disse.
	Partimos.
	- Tem namorado?
	- Não.
	- Nem fica com ninguém?
	- Não.
	- Por quê?
	- Não sei.
	- Mas você é muito bonita. Deve ter um monte de gente querendo namorar com você.
	Ela sorriu.
	- Eu sou um.
	- Hein?
	- Está com muita pressa de chegar em casa?
	- Moço, se está com más intenções, é melhor me deixar aqui mesmo.
	- Não está com fome?
	Ela não respondeu. Ficou séria.
	Eu não iria perder a noite. 
	Perguntei onde era sua casa. Ela me falou. Santana era um lugar sossegado. Ruas tranqüilas, escuras por culpa das árvores.
	Antes de chegar na sua casa, encostei. Ela tirou o cinto de segurança. Iria fugir do táxi.
	De repente um farol alto me assusta. Um camburão parou atrás de mim. Polícia.
	- Fala que sou seu namorado.
	- Vou falar que você quer fazer maldade comigo.
	- Eu estouro sua cabeça. Olha isso.
	Levantei a camiseta e mostrei meu revólver na cintura.
	- Ai, meu Deus... ela disse.
	Os policiais se aproximaram, um de cada lado do carro.
	- Não dá bandeira, não dá bandeira. – falei a ela.
	Abri o vidro.
	- Boa noite. Nós somos namorados. – adiantei.
	O policial do meu lado perguntou:
	- Está tudo bem, moça?
	- Está sim, ele é meu namorado.
	Mostrei os documentos a eles. Pegaram nossos RGs e levaram para a viatura, onde constataram nossas fichas limpas.
	O policial devolveu os documentos. Pediu para tomarmos cuidado e partiram com o camburão.
	Olhei para ela. Meu pau estava duro.
	- Me chupa. – falei.
	- Moço, não faz isso comigo não.
	- Vai perder a vida por causa de uma chupada que não quer me dar? – falei, enquanto sacava o revólver com a mão direita e com a esquerda, tirava meu pinto duro para fora da calça. Ela estava olhando para o outro lado. – Pode começar.
	Titubeante como alguém que tem que chupar um pau com um revólver na cabeça, ela se aproximou devagar, tremendo toda.
	- Desse jeito não dá. Chupa com gosto, caralho! – falei, apertando o cano do revólver na cabeça dela.
	Aí ela chupou com gosto mesmo. Parecia profissional.
	De repente, achei que ela estava gostando. Enquanto ela me chupava, eu passava as mãos em suas tetas e sua bunda. Gozei dentro da sua boca.
	- Não cospe. Engole tudo. – botei o revólver na cabeça dela de novo. 
	Ela engoliu.
	- Posso ir embora agora? – ela disse.
	- Não, estamos só começando.
	“Central para 015”.
	Meu rádio.
	- 015. – atendi.
	“Passageiro na Love Story precisa de corrida até Cumbica”.
	Nossa, corridão. Cem paus brincando.
	- Tenho que ir. – falei a ela. – Me dá seu telefone.
	- Não tenho.
	- Nem no trabalho?
	- Não. Não lembro.
	- Você trabalha onde?
	- Num bar da São João. Lá onde você me pegou.
	- Olha, faz o seguinte. Fica com meu cartão e me liga amanhã, tá bom? Mas é para ligar mesmo. Se chamar a polícia, já sabe o que vai acontecer com você.
	Ela desceu do táxi.
	No dia seguinte, meu celular toca. Era ela. Não podia ser. Só poderia ser armação. Sinceramente acreditei que ela não iria me ligar e ainda iria chamar a polícia. Achei-me um verdadeiro idiota em dar o meu cartão a ela.
	Peguei a Via Dutra e me mandei. Quando cheguei em Jacareí, deixei meu táxi numa rua deserta.
	Fui a um ponto de ônibus na estrada e esperei até umas seis da manhã, quando passou um ônibus coletivo para São José dos Campos. Comprei uma passagem para Belo Horizonte. Era o primeiro ônibus que iria passar, uma hora depois.
	Desci em Contagem. Hospedei-me num hotelzinho perto da rodoviária.
	E agora, o que eu faço da minha vida?
	Que caralho ser homem e ter tesão. A gente faz cada merda. 
MALDITO PEIDO

Ela chegou na festa e disfarçadamente procurou por seu amado: seu professor de filosofia, por quem estava apaixonada.
Ela era estudante do primeiro ano de psicologia e não imaginou que um professor de filosofia poderia ser um morenaço daqueles, que parecia dar a aula exclusivamente para ela.
Por isso, na festa da faculdade, naquela balada chique, ela colocou a melhor roupa, a melhor maquiagem e ainda passou umas horas lascando uma chapinha no cabelo. Não deixaria escapar seu professor de filosofia.
O problema é que naquele sábado, estava sofrendo de uma terrível prisão de ventre que a estava até deprimindo. Mas lutaria para vencer o problema, afinal seu objetivo era bastante nobre: ficar com o professor de filosofia, de preferência na frente de todo mundo, o que deixaria o beijo ainda mais gostoso. Pensando bem, se ele quisesse comê-la naquela noite mesmo, daria tranquilamente.
Encontrou-o, cumprimentou, ficou fazendo aquele joguinho de “tô a fim de você mas não muito”. Apareceram outras pessoas para conversar mas ela deu um jeito de ficar por perto do professor.
No entanto, sua barriga parecia estar crescendo, com aquele gás sendo produzido desesperadamente. Pediu licença e foi ao banheiro. Lotado. Não iria peidar ali na frente de todo mundo. Uma solução seria entrar na pista de dança lotada, peidar e sair. Ninguém perceberia.
Quando chegou na pista de dança, desistiu de novo. Tinha muita gente conhecida ali. E o pior é que quando estava de saída, apareceu o professor de metodologia científica, que resolveu conversar um pouco sobre amenidades. E ela ficou ali, ouvindo sua longa conversa, que parecia estar durando já umas duas horas.
E o gás em sua barriga aumentando, aumentando...
Quando conseguiu se desvencilhar do professor de metodologia, passou a andar pela balada, em busca de outro banheiro ou de algum lugar onde não houvesse nenhum conhecido, que a pararia para conversar.
Achou um local tranqüilo, perto da entrada da cozinha, mas quem estava andando por ali era justamente o professor de filosofia, que a pegou e a beijou, sem que ela pudesse esboçar qualquer reação.
O beijo foi longo e muito bom... embora ela não estivesse conseguindo segurar mais o peido. Iria explodir. Iria peidar ali na frente do gostosão e seria a morte!
Não estava agüentando mais. O peido parecia ter vida própria, pressionando seu esfíncter como uma turba de bárbaros querendo romper os portões de um catelo.
O professor a apertava forte e isto pressionava sua barriga ainda mais.
Ela pediu licença e disse que voltaria logo logo. Saiu correndo. Tinha que achar algum lugar para peidar.
Sem perceber, deu uma volta enorme e praticamente voltou ao mesmo lugar, onde achou uma saída para um jardim. Como estava muito frio, havia pouca gente ali. A estudante de psicologia olhou a sua volta e dirigiu-se à extremidade do jardim, onde aparentemente não havia ninguém.
E foi lá mesmo que soltou a bomba. Um longo e ruidoso alívio do gás que estava preso em seu intestino grosso. Quanto tempo durou aquele peido? Oito segundos? Dez segundos? Não sabia. Só sabia que foi o melhor peido de sua vida. Não bastasse a eliminação daqueles litros de gás podre de intestino, ainda deu um arremate, um flato retardatário.
Seu professor de filosofia, quando viu a moça dirigindo-se ao jardim, ficou curioso e decidiu segui-la. Sem que ela tivesse percebido sua presença, testemunhou o peido mais longo que já contemplara em sua vida, cuja música da balada mal conseguiu ocultar o ruído.
Quando a moça acabou, o professor teve vontade de bater palmas, mas achou que seria humilhante demais para ela.
A estudante, suspirando de alívio, olhou enfim para trás e viu o professor.
- Que você está fazendo aí? – ela perguntou, espantada.
- Eu vi você entrando no jardim e resolvi te seguir.
- O que você viu?
- Vi isto que você fez. - disse ele, na maior inocência, achando que ela daria risada.
- Ah, meu Deus, que vergonha...
Ela saiu correndo. Seu professor tentou segurá-la, dizendo que não havia problema nenhum, mas ela ficou constrangida demais.
Desvencilhou-se dos braços dele e sem se despedir de ninguém, deixou a balada e nunca mais voltou à faculdade. Ninguém a achou em sua casa ou em seu trabalho, pois ela também pediu demissão e mudou de casa para local ignorado.

MORANGOS DE INDAIATUBA

	Seu ex-namorado a trocou por uma namorada mais bonita. “Cafajeste!”, dizia dele. Mas, no fundo, ela sabia que o cara se mandou porque a paixão acaba mesmo e ponto final. Ele lhe deu o fora, mas poderia muito bem ter sido o contrário. E não admitiria que ele a chamasse de cafajeste. Nem nenhum homem.
	Agora ele tinha um carro e estava na faculdade de sociologia. “Que faculdade de bicha!”, falava a desprezada. Ele conheceu a vagabunda no emprego. Era vendedor de baterias numa loja da Teodoro Sampaio. A menina estudava bateria na escola em cima da loja. Ele também tocava bateria numa banda cover. “Músico frustrado, toca em banda cover”, continuava praguejando.
	Fez questão de ver a namorada dele. Soube através de uma amiga, que passou de ônibus na rua e o viu atracado com a moça, na frente da loja.
	A ex ficou meio disfarçada, fingindo ver revistas numa banca.
	“Hippie vagabunda. Vai ver nem toma banho”, acreditou.
	A cara de débil mental feliz do ex, abrindo a porta do Gol branco para a hippie nojenta foi o que causou mais ódio na balconista da lanchonete Suco de Ouro, no Hospital das Clínicas.
	Dois meses depois, a hippie entrou na lanchonete. Sua antecessora no coração do baterista fingiu que não a viu e virou as costas.
	- Amiguinha! – chamou a hippie.
	A balconista teve ímpetos de esfaquear a filha da puta. Virou-se com um olhar de história em quadrinhos.
	- Eu queria um suco de morango. Com leite.
	Sem dizer uma palavra, a atendente foi à cozinha, retirou seu absorvente e espremeu o sangue no liquidificador. Colocou alguns morangos congelados, leite e açúcar.
	Levou o copo à namorada do ex e observou-a tomar um gole com canudinho. A hippie fez uma careta:
	- Que sabor diferente.
	- São morangos de Indaiatuba. – respondeu.
	A “imbecil”, como a balconista considerava a namorada do ex, tomou tudinho. Foi observada com um quase sorriso.
	A hippie pagou o suco e saiu meio aborrecida, insatisfeita com o sabor esquisito do suco.
	A moça abandonada lavou o copo com um grande sorriso, desta vez.
	“Morangos de Indaiatuba... de onde tirei esta idéia?” – divertia-se.
O BILHETINHO

	Sabe aquele ponto em frente à igreja da Vila Rosália? Eram quatro da manhã. Ou quatro e pouco. Cheguei perto do filho da puta, apontando-lhe [gostou da ênclise?] o cano e disse:
	- Vou te matar, filho da puta!
	- Por quê?
	- Por que eu quero, filho da puta!
	- Quer me matar por quê?
	- Porque eu estou com vontade! [Eu não tinha o hábito de falar bonitinho daquele jeito, “eu estou com vontade”. Normalmente, eu diria: “Tô cum vontade”].
	- E por que justo eu?
	- Por que você tem cara de filho da puta!
	Descarreguei o cano em cima dele. Seis pipocos que ecoaram pela madrugada [sou poeta!].
	Já ia caminhando em direção ao Lago dos Patos, quando reparei num volume. Talvez uma marmita que o filho da puta carregava.
	Era. Embrulhada numa sacola do Barateiro. Abri. Estava quentinha. Arroz, feijão, picadinho e batatas. Seria o meu jantar. Quando guardava de volta na sacola, percebi um bilhetinho. Li:
	Não vai chegar tarde, hein? Te amo!
	Aqui foi demais. Não agüentei, sentei no meio-fio e comecei a chorar.
O FANTASMA

	Eu morava num prédio com várias quitinetes.
	Uma noite, uma mulher bateu na minha porta, desesperada. Dizia que havia um fantasma na quitinete dela.
	Ela usava uma camisetinha da Minnie e um shortizinho de florzinhas, através do qual eu via a sombra de sua calcinha.
	No cinco meses que eu morei ali, vi aquela moça poucas vezes. Eu chegava em casa próximo de meia noite, por ser segurança de uma farmácia. Via poucos vizinhos.
	Não vou dizer que a vizinha era uma deusa. Não era nem a mais bonita do meu andar. Mas tinha aquele jeito de quem não dava umazinha há um certo tempo. Bom, foi o que eu achei, pelo menos.
	Fantasmas? Ora fantasmas!
	Falei para a moça que era impressão dela, que ali não tinha fantasma nenhum.
	Nem velho era o prédio.
	Tanto insistiu que eu fui lá ver o fantasma.
	E não é que tinha um fantasma mesmo?
	Perto da cama dela, uma figura antropomórfica de pé, coberto com um lençol branco. Estava imóvel. Que será que ele estava querendo?
	Falei para a moça que se ela quisesse dormir na minha quitinete, poderia ficar á vontade. Ela topou.
	Fechei a porta do apezinho dela, após apagar a luz, por sua recomendação. Passei até a chave na porta. Imaginei que assim o fantasma iria embora.
	Levei a mulher para meu apartamentinho e mal ela entrou já foi me abraçando, dizendo que eu era seu herói... que tem de gente louca nesse mundo.
	Se eu comi ela? É claro, ué.
PORRA, MANO, ESSE SOM É MUITO DEZ 

Qual é o nome desse som? Mistura de hard rock com rap. Hard rap? É a versão branca do rap. É, mano. Beastie boys, mano. Red hot, mano, é, mano, morô? Red hot, mano. 
É, mano, é isso aí, mano. 
Tinha um mano junto de mim. Meio japonês, meio preto. Não vi direito a cara dele. Pareciam dois. Tava de boné e mais louco que eu. 
Aí, mano, vou tomar outra cuba. 
Podicrê, mano. 
Fomos lá. Cacei minhas últimas moedas e pedi outra cuba. O mano pediu sei lá o quê. 
Continuamos curtindo aquele puta som, meu. 
Tu mora onde, mano? 
No rosália. E você? 
No paulista. Nem sei como é que eu chego lá, mano. 
É, mano. Nem tem bumba essa hora, meu. 
Nem sei onde é que eu tô, mano. 
Podicrê, mano. 
Meu. Peraí que vou vomitar. 
Meu. Fui. E vomitei, meu. 
Porra, meu, eu e o mano japonês preto começamos a andar, meu. Despedi dele, no lago dos patos, tá ligado? E deitei num banco, tá ligado? 
Não, vou para casa, morô? 
Como cheguei no paulista, não sei, meu. Só sei que a mina tava morta, meu. Cheia de sangue, mano, e meus sons e a tv foram levados. Cara. Puta que pariu. 
Fodeu. 
RELATO

Conheci uma atriz de teatro e levei-a a um restaurante.
Odeio mulheres que me levam para a cama. Tenho instinto de caçador, não de caça. Mas quando aquela atriz de teatro resolveu me convidar para dormir na casa dela, resolvi aceitar pelo único motivo de que seria a primeira atriz de teatro com quem eu me deitaria. Inseriria a informação no meu currículo.
Ela morava numa quitinete, isto é, a porta de entrada levava diretamente a sua cama.
A atriz de teatro me jogou em seu leito, abriu uma gaveta e tentou me algemar na cabeceira.
Mas eu retirei as algemas das mãos dela e sob seus protestos e tentativas de fuga, fiz com ela o que ela queria fazer comigo.
Ignorei sua insistência em ser desalgemada.
Olhei a volta. Havia um livro ali que me parecia interessante: “A Psicologia dos Contos de Fadas”, de Jung. Retirei-o da cômoda onde ela depositava seus livros e outras tralhas, sentei-me em sua confortabilíssima poltrona e li o livro até a página 44, quando a polícia chegou, mobilizada pelos vizinhos, assustados com seus gritos de socorro.
Enfim fui algemado. Ao sair do apartamento dela, seguro pelo policial, dei boa noite à atriz de teatro.
O delegado de plantão da 81ª delegacia me perguntou o porquê de tê-la algemado. Respondi a verdade. Ela queria me algemar mas eu quem a algemou. Nada mais.
O delegado me liberou.
Entrei num táxi e como não iria conseguir dormir, resolvi descer numa lan house poucos quarteirões depois para jogar um pouco.
Às 5h30m, caindo de sono, chamei outro táxi e fui para casa.
Nada mais emocionante aconteceu naquela semana.

SÓCRATES – PARTE II

	Um discípulo de Sócrates bate a uma porta, segurando um galo.
	- Esculápio! Esculápio!
	Um minuto depois, Esculápio abre a porta, sonolento, coçando o olho.
	- Que que foi?
	- Aqui está o galo, que lhe devíamos.
	Entrega o galo.
	- Até que enfim, hein?
	- Desculpa a demora.
	- Tudo bem.
	- Até logo.
	- Até.
	O discípulo vai embora. 
	Esculápio põe o galo junto aos outros e volta a dormir.
UMA HISTORINHA SUBURBANA

	Eu era auxiliar de mecânico. Aprendiz.
	Um amigo do meu pai, que tinha uma oficina, Getúlio, me descolou um trampo.
	Ia ficar me pagando salário mínimo mais almoço até eu aprender a ser mecânico. Para desespero de minha mulher, que não queria que eu ganhasse um salário daqueles. Que eu poderia fazer, se tinha ficado nove meses desempregado?
	Fui funcionário público oito anos, entre 18 e 26 anos, no DNER, mas me mandaram embora, acusado de ser desrespeitoso com o novo chefe. Só porque eu o mandei tomar no cu.
	Minha mulher, com quem eu era casado há cinco anos, mal estava falando comigo. Ela dizia estar sustentando a casa, com seu salariozinho de 300 reais de caixa de uma padaria em Guarulhos.
	Acho que, apesar da promessa de “na riqueza e na pobreza”, os casais só se dão bem quando não há problema financeiro.
	Se não bastassem as dificuldades, a irmã de minha mulher, Jacira, veio do Amapá passar o verão em casa. Minha mulher nem sequer me avisou.
	Estava um pedaço de mau caminho aquela menina. 14 anos. Um tesão. Macacos me mordessem!  Eu não a via desde os seus dez anos.
	Botou a menina para dormir na sala.
	Ora, o horário em que eu e Francisca trabalhávamos era diferente.
	Eu, das 10 às 19 horas ou 20 horas. Chiquinha, das 16h à 0h, mas ela fica sempre até quase 1h da manhã, quando pegava o ônibus até o Tucuruvi e de lá, até o Horto, onde morávamos. Chegava em casa quase às 2h. Foi assaltada na rua 17 vezes em dois anos.
	Não demorou muito, comecei a paquerar Jacira. E vice-versa.
	Eu a observava tomando banho, pelo buraco da fechadura e ela vivia encostada em mim.
	Em uma semana ela passou a andar de camiseta e calcinha em casa, antes que minha mulher chegasse.
	Eu precisaria enfiar meu pau naquela bunda.
	E tudo começou com uma massagem que ela resolveu fazer nos meus pés.
	Fiz questão de não esconder meu pau duro sob a cueca samba-canção que eu usava.
	Em cinco minutos, ela chupava o dito-cujo. E me deu o cu com gosto.
	Durante todo o verão não falei com minha mulher e comi a jovem irmã dela.
	Resolvi ir embora com Jacira.
	Prestei outro concurso, desta vez na prefeitura de São Bernardo do Campo.
	Fui para lá com Jacira.
	Já fazem quatro anos. A família delas procura a gente até hoje.
	Jacira foi trabalhar num supermercado, no setor de frios. É um grande mercado e ela ganha bem. Quase 500 paus.
	Tivemos um filho. Quando acabou a sua licença-maternidade, tive que arranjar alguém para cuidar de Matias.
	A filha de 14 anos de uma vizinha foi oferecida para ser sua babá por quatro horas por dia, depois que Jacira saía para trabalhar. Eu chegava e dispensava a menina.
	Mas não sem antes dar meu pau para ela chupar. E chupa bem que só a porra.


DUAS EXPERIÊNCIAS DO CARALHO 
Do livro “O Joelho Direito de Jesus”,
De Rynaldo Papoy

Tenho 30 anos e passei por duas experiências do caralho em minha vida. 
Na primeira vez, fui tenente da Rota. 
Cresci no Parque Continental, em Guarulhos. Minha família foi uma das primeiras a chegar aqui. Durante toda minha infância sonhei em ser da Rota para cacetar bandidos e às vezes matá-los. 
Aos 14 anos entrei na academia da Polícia Militar. Aos 19, formei-me Tenente da Rota. Ronda Ostensiva Tobias de Aguiar. Já não era tão violenta quanto antes. Nos tempos do Maluf, diziam que era uma instituição radical, assassina. Franco Montoro e Orestes Quércia a suavizaram, mas havia a perspectiva de que se Maluf voltasse ao governo ou elegesse-se o delegado Fleury Filho, a Rota voltaria aos tempos áureos. 
Foi o que aconteceu. Fleury devolveu a Rota o seu poder. Eu era lotado na zona noroeste de São Paulo. Perus e adjacências. A terceira região mais violenta da capital. Mas ainda muito violenta. 
Aos 21 anos, me casei com minha namorada, que estava grávida. Sirlene. Eu me chamo Glauco. Nasceu meu filho, Plínio. Nome do meu avô, falecido quando eu tinha cinco anos. 
Foi o que mais gostei de fazer na vida. Voltar para casa, depois de arrebentar ladrões e ver cair suas casas e ser recebido por aquela morena e aquele pivetinho. 
Meu filho só viveu três anos. Morreu de leucemia. Não preciso dizer o quanto fiquei deprimido. Mas procurei manter a sanidade e voltei ao trabalho uma semana depois. Já minha mulher pirou de vez e oito meses depois da morte de Plínio, mesmo fazendo tratamento, pegou meu revólver e deu um tiro na cabeça. Levei-a ao hospital mas ela morreu no caminho. 
Fiquei três meses sem conseguir trabalhar de novo, vegetando na minha casa. 
Tentei voltar a trabalhar mas nunca mais fui o mesmo. Chorava dentro do camburão. Chegava em casa e quando pensava nos ladrões que eu havia espancado ou executado, não podia nem dormir. 
Não teve jeito. Desisti de ser policial militar, muito menos da Rota. Pedi baixa, montei uma oficina mecânica e comecei a estudar engenharia. 
Senti-me melhor. 
Ainda no primeiro ano, conheci Lorena. Uma psicóloga lésbica. Conheci-a na locadora de vídeo. 
Três meses assediando-a (com classe, lógico) e consegui beijá-la e comê-la. Foi muito bom. 
Não trepava há meses, desde a morte de Sirlene. Lorena, além de belíssima, era muito inteligente e começou a vir quase todo dia em casa até que convidei-a a morar comigo. Aceitou. Não sei se voltou a transar com mulheres. 
Foi então que me contou outra coisa. Era uma ex-dependente de cocaína, que tomava calmantes diariamente para não voltar ao vício. Caramba... 
Formei-me e resolvi mudar de São Paulo. Ela gostou da idéia. Comprei um terreno em São Joaquim, em Santa Catarina e resolvi plantar cebola e alho. Não sei porquê. 
Nunca fui engenheiro. 
Um ano se passou. 
Sofri um acidente de moto e quebrei o fêmur direito. Assim, imobilizado, vi outra merda acontecer. 
Lorena perguntou se um primo seu poderia ficar uns dias lá em casa de férias. Falei: &quot;Tudo bem&quot;. 
Era mentira. O desgraçado estava fugindo da polícia, acusado de matar um policial! Soube disso porque sei reconhecer um pilantra a 200 km de distância e pedi sua ficha, mas sem dizer que ele estava em casa. 
Arrastando-me numa cadeira de rodas, resolvi pedir a Lorena que mandasse seu primo Vinícius embora ou eu o denunciaria. 
Achei os dois no galinheiro... cheirando cocaína. Que filho da puta! Botei a mão na cintura mas não havia revólver nenhum. E ele tinha um .380 na cintura. E estava completamente louco. Lorena também. Dei meia volta e rastejei para casa. Liguei a tv. 
No dia seguinte, acordei com Lorena a meu lado, dormindo nua e descoberta, apesar do frio. Fazia uns 2°. Teria fodido com o pilantra? Capaz. 
Neste instante, Paulão, meu funcionário, bateu na porta. Cobri a bunda de Lorena e mandei abrir a porta. Ele botou sua cara barbuda no quarto e disse: &quot;Seu Glauco, a polícia está aí&quot;. 
&quot;Fala que eu já vou&quot;. 
Fui à varanda, onde uns policiais civis de Santa Catarina me esperavam. 
&quot;Tenente Glauco?&quot; 
&quot;Ex-tenente&quot;. 
Perguntaram de Vinícius e não sei porquê, falei que não sabia de nada. E ainda completei: &quot;Nem que fosse irmão da minha mulher, assassino de tira eu arrancava os ossos do filho da puta&quot;. 
Foram embora. 
Paulão ficou olhando para mim eu eu fiz uma careta que poderia significar: &quot;Fazer o quê?&quot;. 
Voltei para dentro e botei um vídeo. Acho que era Exodus, de Otto Preminger. Dormi sentado. 
Lorena me acordou. Eu estava irritadíssimo. Dei-lhe uma porrada na cara que a fez voar longe. 
Fiz uma bolsa, troquei de roupa e fui para Buenos Aires. 
Terminei o tratamento lá. Fiz fisioterapia em São Paulo. 
Bem, foi tudo o que aconteceu. 
Reabri a oficina mecânica, no bom e velho (mais ou menos) Parque Continental. 
 
Está Escuro	 	   
 	 	Por Rynaldo Papoy
rynaldopapoy@yahoo.com	 	   
 	 	 	 	 
  
 	Egídio era filho único. Nasceu no Piauí em 1960 e em 1981 mudou-se para São Paulo como tantos nordestinos, em busca de uma vida melhor. 
Trabalhador. Foi ser pedreiro e em 1982 voltou à escola. Depois foi trabalhar numa fábrica. Começou como faxineiro, depois ferramenteiro.
Em 1984 terminou o primeiro grau e pôde alugar uma casa melhor, perto do trabalho. Tinha dois quartos e uma sala bem espaçosa. Um quintal bom e uma árvore bonita. Aos poucos foi mobiliando a residência. Tv, aparelho de som, sofá, mesa, geladeira e fogão para as receitas que trouxera do Nordeste. Tinha até uma bicicleta. Adorava passear no domingo. Só faltava uma mulher. Logo, logo arranjaria uma.
A vida prosseguiu. Acordava por volta das 5h30m, ia trabalhar, descansava um pouco em casa, depois umas aulinhas (estava fazendo supletivo do segundo grau), um pouco de tv e dormir para o outro dia. 
E foi num sábado que fez amizade com o vizinho da esquerda. Viu um garoto e um homem empurrando uma Brasília e foi ajudar. O homem que empurrava era o vizinho de duas casas ao lado. O garoto que empurrava era o filho e o do carro era o dono da casa. No domingo já foi jogar futebol com os novos amigos. Depois foram a um botequim e entornaram umas cervejas.
Dias depois Egídio ganhou um presente. A cadela do vizinho Mauro deu filhotes e o piauiense ganhou um cachorrinho. Um vira-latinha.
Assim Egídio levava a vida. 
De noite começava a se preocupar. A rotina parecia ganhar formas nas paredes de sua casa. A arquitetura de seu lar estava ficando pesada. Olhava para os ângulos no teto, analisando cada sujeirinha. Nem as voltinhas de bicicleta aos domingos adquiria novos caminhos. Num daqueles domingos parou a bicicleta no mercado perto de casa e entrou em busca de algo prático para preparar no almoço. Egídio tinha a impressão de que aquelas prateleiras cheias estavam vazias. Nenhuma novidade em produtos. Catou uma lata aqui, um pote ali, pôs na cesta. Continuou olhando nas gôndolas até que seus olhos foram parar numa bunda. Algo bom parar comer, só não poderia comprar.
Levantou os olhos, foi passando pelas curvas bonitas e quando chegou nos cabelos a moça voltou-se para Egídio e achou o homem também. Ela tentou transmitir algo pelo olhar e Egídio respondia com cara de &quot;gostei-de-tu&quot; mas os dois continuaram suas compras. Egídio sentiu algo enchendo de sangue dentro de seu calção e já não sabia mais o que comprar, foi para casa com aquela morena em suas cabeças. 
Quem sabe ela morasse ali? Passou a freqüentar mais aquelas bandas. Só comprava naquele mercado.
Mas só a reencontrou. Duas semanas depois, num açougue. Ficou na fila olhando, tarado, para aquele corpo incrível com cara de &quot;ai-se-te-pego&quot;. Mais uma vez ela pareceu interessada por Egídio, muito mais do que antes.
E num sábado ele fez uma grande descoberta: ela trabalhava numa loja ali na avenida. Ele sabia que ela estava sentindo a mesma coisa e foi direto a ela. Entrou na loja. Já sabia o que comprar, envelopes. 
- Oi. Eu queria uns envelopes.
- Quantos?
Os olhos dela estavam fixos nos de Egídio.
- Me vê aí uns... dez.
Ela virou para pegar e deixou à apreciação de Egídio aquelas nádegas. O homem não pôde conter um forte suspiro.
- Que mais?
- Deixe eu ver...
Passeou pela loja.
- Selos! - deu uma risadinha. - Como é que eu vou mandar cartas sem selos?
- Quantos?
Agora ela o pegara. Mas servia para prosseguir um papo.
- É... Quantos selos será que precisa para mandar uma carta para o Piauí?
- Acho que bastante. Você é de lá? 
A paquera estava consumada. Depois que a loja fechou ele voltou e foram tomar algo numa padaria ali perto. Conheceram-se e alegrados pelas cervejas a casa de Egídio os recebeu para uma boa trepada. Egídio era o novo namorado da moça chamada Cláudia, de Imperatriz do Maranhão, e Cláudia era sua primeira namorada em São Paulo.
Agora sim ele estava feliz. 
Mas chegou o outono e ele se sentiu um pouco doente. Uma gripe. Foi ao médico, tomou uma injeção e no dia seguinte estava melhor.
O bem-estar foi passageiro. À noite, voltou a febre. Pediu ajuda a uns comprimidos e dormiu. De manhã mais febre. Foi direto ao hospital. Mais uma injeção forte e repousou. Na hora do jantar sua namorada foi visitá-lo, soube de seu estado e passou a noite com ele.
Foi o pior dia. Teve delírios, sonhava acordado. Achava que sua cama estava flutuando no ar. E o ar, pesadíssimo. Era como se estivesse dentro d´água.
Chegou a manhã. Cláudia lhe preparou o café, que não conseguiu tomar direito, e foi trabalhar, prometendo voltar na hora do almoço.
Nem quis saber de médico. Toda vez que ia, piorava. Achou melhor ficar em casa. Os vizinhos souberam de seu estado e começou a chover receitas de remédios. Mas Egídio estava saturado de receitas, afinal ele tinha nascido no Nordeste, região onde tudo é na base da cultura popular. Chamou um garoto na rua e pagou-o para comprar-lhe uma dúzia de limões. A base das receitas contra gripe.
Em dois dias as injeções e os limões o reergueram. Mas estranhamente o ar de sua casa continuava pesado.
Numa noite a rua não tinha energia. Silêncio e velas. Na hora de dormir, colocou uma vela num prato grande no quarto, tomando o cuidado para não ficar nada por perto que pudesse provocar um incêndio. Deitou na cama e ficou olhando a chama tremulante e hipnótica. A dança daquele foguinho prendeu a sua atenção por algum tempo e depois ele desviou o olhar para as sombras estranhas que a vela causava no quarto. Lembrou-se das notes de sua casa em Parnaíba, iluminadas por lamparinas e o medo das coisas que nunca via mas não deixava de temer.
Antes mesmo de pegar no sono a luz voltou. Levantou e apagou a vela. Surpreendeu-se com uma leve sensação de alívio dentro do peito. Sentiu medo do escuro.
Mas tratou de controlar-se. Só crianças têm medo do escuro... 
Na noite seguinte, acordou assustado com um estranho barulho. Acendeu a luz e seguiu o barulho. A porta da cozinha que dava aos fundos do quintal estava sendo arranhada. Lembrou... era seu cãozinho. Abriu a porta e viu o animalzinho acordado e irrequieto, querendo alguma coisa. Jogou um prato de comida para o cachorro e encheu o outro pote com leite. Claro que ele foi direto ao leite. Egídio não esperou para ver se o cãozinho comeria a comida e fechou a porta.
Deitou na cama. Perdera completamente o sono. Ficou parado, com os olhos fechados, como se estivesse vendo o sono chegar e tomá-lo.
Abriu os olhos e passou pelo quarto. Voltou a fechar. Sentiu que estava ficando pesado de sono. Botou o corpo para o outro lado. Sentiu a orelha gelar e cobriu um pouco mais sua cabeça.
Abriu os olhos. Ficou deitado de costas. Olhava o teto. Colocou as mãos debaixo da cabeça. Tossiu. Virou para a esquerda, cobriu-se novamente e fechou os olhos.
Levantou da cama e acendeu a luz. Pôs os chinelo, apagou a luz e foi à sala. Ligou a TV e achou um filme.
Pela terceira vez, sentado no sofá defronte à TV, olhou atrás, para a escuridão. Havia algo com o escuro de sua casa ou com ele. Achou que era com ele. Depois suas dúvidas voltaram-se para o escuro.
Amanheceu, foi trabalhar e pensou.
- Ainda devo ter um pouco de febre.
Talvez por isso ficava imaginando coisas à noite.
Durante uma semana ficou preocupado com o escuro. Dormia com a luz do corredor acesa.
- Devo estar ficando louco.
Havia algo no escuro, ele tinha certeza. Era só apagar a luz e sentia aquela sombra se materializar. Era como o fundo de um olho. 
Foi à igreja. Católico.
Por uns tempos ficou místico. Acendia velas, rezava, adquiria amuletos...
Mas nada lhe tirava a idéia de que a escuridão de sua casa estava viva. Nem Cláudia, sua namorada, que era constantemente convidada a dormir com ele, convencia-o de que era uma cisma.
O escuro o vigiava. O escuro o espreitava. E uma hora iria pegá-lo.
- Sim! Uma hora ele vai me pegar!
Sábado destes recebeu a visita de seu amigo Amaro. Conversaram, riram, chegou o jantar. E Egídio dava um jeito de segurar o amigo. Mas depois ele se foi. Tristeza. Era encarar o escuro novamente.
O escuro chegou com a noite de um filme de terror. O vento às vezes uivava, as folhas das árvores caindo.
E o cachorrinho ficou agitado com a chegada do temporal. Latia e arranhava a porta do fundo. Egídio abriu, ele entrou correndo e ficou pulando. Depois ganhou uma caixa de sapato.
- Tomara que você cresça logo, Chiquito.
Rezou, deitou... e dormiu.
5h30m. O relógio tocou. Trrrrrrrrrrrimmmmmmmm...
- Eu dormi! Obrigado, meu Deus, eu dormi! Quem tem sono, dorme!
Sentou-se na cama e alcançou um chinelo. Mas quando se levantou... algo estranho tinha acontecido: onde estava seu cãozinho? Sumira também a caixa. O susto deu lugar à dúvida. Talvez o brincalhão tivesse aprontado alguma.
Abriu a porta e viu a caixa. E viu também cocô. &quot;Porcaria!&quot;. Na direção do banheiro viu pelos no chão.A porta estava fechada.
Colocou a mão na maçaneta. E se preparou para o que iria ver. Respirou fundo e girou-a: Clec.
Foi empurrando devagarzinho... E um cheiro horrível foi chegando em seu nariz.
- Que nojeira... que nojeira...
A porta totalmente aberta: Egídio se afastava com o olhar fixo no chão e a boca aberta. Vomitou.
No chão do banheiro o cachorrinho estava completamente estraçalhado, parecia ter sido mastigado e cuspido. Só sobrara inteiro (ou quase) o rabo e a cabeça, sem os olhos.
No cérebro de Egídio só um pensamento: o escuro tinha feito sua primeira vítima.
Ele faltou ao trabalho e limpou o banheiro. Jogou água no piso e foi arrumar suas coisas. Dormiu num hotel. No outro dia foi falar com o dono da casa e arrumou outra. Chamou um caminhão e enquanto esperava, desmontava seus móveis. Chegou sua namorada Cláudia.
- Eu não consigo entender porque você quer sair daqui.
- Já falei, essa casa aqui vai acabar me matando. Tem alguma coisa, sei lá.
A casa de dia era muito diferente. O Sol entrando. Que pena que o Sol não entrava à noite. 
A porta da sala foi fechando sozinha.
- É o vento.
Foi até o fim.
- Que vento?
As batidas dos corações aumentaram. Egídio foi até a porta e não conseguiu abri-la.
- Vamos sair daqui.
Correram para o fundo. A outra porta também estava fechada.
Tudo fechado. Janelas fechadas. Cláudia agarrou-se a Egídio e começou a chorar. 
- Calma, pelo menos está entrando o Sol.
Não durou muito tempo. Como se a noite tivesse caído de repente às duas horas da tarde, tudo ficou na mais plena escuridão. As luzes não funcionavam.
Um grito de mulher. Vidros estilhaçados.
Egídio conseguiu pular fora da casa por uma janela lateral. Estava sem a perna esquerda. Foi pulando feito o saci, com o sangue vazando como uma cachoeira e saiu à rua diante dos olhares horrorizados do povo, caindo na calçada e implorando por socorro.
Cláudia tinha morrido como o cachorrinho de Egídio. Os legistas disseram que ela morrera como se tivesse sido atacada por uns cinco tubarões, algo assim. E a perna de Egídio arrancada também por uma espécie de mordida.
O fato chegou aos jornais e à TV. Meses depois a casa foi demolida.
Egídio voltou ao local, seis meses depois e ficou parado diante do terreno já cheio de capim, apoiado nas muletas.
Quando ia saindo, uma enorme garra preta irrompeu do matagal, agarrou Egídio e o puxou para baixo. 
Conseguiu ler a pichação que havia num muro frente a sua antiga casa: &quot;A certeza do anoitecer nos desencoraja a caminhar durante o dia&quot;. 
(1989)	 

ESTRÉIA DA SELEÇÃO NA FAVELA DO PULGÃO 
Do livro “O Joelho Direito de Jesus”,
De Rynaldo Papoy
Favela do Pulgão, zona sul. 27°. Cara, isto não parece outono em São Paulo. Acho que o Sol passa a manhã esquentando a sujeita do asfalto e agora, à uma hora, não há quem aguente. Quando cheguei em casa, tomei um banho de uma hora. Meus manos ficaram na sala. Tomavam o café que minha mulher Luísa preparou. Os caras tomavam o café gargalhando. Era sempre assim. Falavam da cara dos seguranças do banco, da cara do gerente, dos caixas, dos clientes. O dinheiro, devidamente dividido em sete, ficará aqui em casa, num compartimento secreto no meu quarto, até de noite. Meus manos vêm e o levam. Já separamos também o dinheiro da comunidade, 25% da renda do assalto. Hoje deu R$ 126.000,00. E sobrou para cada um R$ 13.500,00. Meus companheiros dizem que eu deveria ganhar um pouco mais, porque eu estudo os bancos e planejo os assaltos. Mas não estou nisto por dinheiro É difícil explicar. Nem tento. Aqui na favela do Pulgão sou uma espécie de rei. Todos me adoram. Porque este dinheirinho mensal ajuda muita gente. Já roubei nove bancos. Seis como participante e três como líder. No primeiro assalto como mentor, conseguimos R$ 600.000,00. Sorte. Dinheiro fácil vicia. Até hoje só matei uma pessoa. Não foi em nenhum assalto. 
Hoje, 10 de junho, a seleção brasileira está estreando na Copa do Mundo. Contra a Escócia. Como sempre acontece, minha mulher, Luísa, não entende bulufas de futebol e fica me perguntando tudo o que acontece. Hoje as perguntas foram: “De quanto em quanto tempo acontece uma Copa? Quem escolhe os times? Quantos juizes tem no jogo? Onde é a Copa do Mundo? Todos os times jogam no mesmo campo? O que acontece se a bola vai na arquibancada? Quanto custa um ingresso para ver um jogo? Por que uns jogadores ficam sentados? Por que o juiz joga aquela moedinha para cima?” Não, não, não aguentaria passar o jogo inteiro, aliás, a Copa inteira ouvindo bilhões de perguntas estúpidas. Eu até poderia ter dito a ela que não me fizesse cacete de pergunta nenhuma durante os jogos, mas sabe como é... ando com um berro na cintura há anos e não tive a chance de atirar em alguém. 
Ele estava ao lado da tv. Um Smith .45 que comprei de um major do Exército. Aos três minutos do primeiro tempo, antes do gol de César Sampaio, encostei o cano na têmpora esquerda dela e atirei. Acho que a bala se alojou no fundo do crânio. Quase gritei gol. Antes do segundo tempo vou limpar o fio de sangue que cobre um canto da tv de 34 polegadas. Mas não é de alta definição. 
KROBE


I

Dalbrus Pernek era o maior caçador de nazistas tcheco. 
Toda sua família havia sido morta em campos de concentração tchecos ou em Auschwitz, na Polônia e ele sobreviveu escondendo-se em esgotos e florestas. 
Quando a Segunda Guerra Mundial acabou, em 1945, estava com doze anos.
Jurou que encontraria todos os oficiais foragidos dos campos de concentração de seu país.
Cumpriu sua promessa até 1957, quando no mural de seu escritório em Praga, sobrou apenas uma foto: a do Sargento Wilhelm Krobe.
Nascido em Munique, Krobe foi transferido para a ex-República Tcheca, anexada por Adolf Hitler, após ser ferido em combate na França. E essa era a única pista: manco da perna direita, caminhava apoiado numa bengala. Em 1945, estava com 25 anos. Não era dos nazistas mais violentos. Mas o que se sabia a seu respeito era que havia mandado matar ou ele mesmo fora o agente da morte de Benjamim Zalinski, pai de sua própria amante [ou escrava sexual] judia, Rachel Zalinski.
Krobe manteve Rachel como amante por dois anos. Ele a conheceu com catorze anos e até seus dezesseis, ela usou os serviços sexuais prestados ao nazista para obter comida e remédios a sua família. Não se sabia o porquê de Krobe decidir matar o pai dela. Era um fato nebuloso.
Com os tios [porque sua mãe morrera de tifo, como muitos prisioneiros, já que a tetraciclina mal havia sido inventada], Rachel foi morar no Brasil, em São Paulo. Lá, sua família montou um armarinho, no bairro do Bom Retiro. Não se casou. Não teve namorado. Enojava-se com a idéia de estar junto com um homem.
Será que Krobe procuraria Rachel um dia? Ela e seus tios já estavam avisados.  Pernek viajou ao Brasil e entregou uma foto de Krobe ao tio de Rachel, Abraham Zalinski. Se tivesse a mínima suspeita da presença de Krobe, deveriam entrar imediatamente em contato com Praga ou Tel Aviv. Os israelenses tinham uma corda esperando por Wilhelm Krobe.

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Mas o telefonema que Pernek recebeu do Brasil não era dos Zalinski. Era o telefonema de um engenheiro judeu alemão que morava em Joinville, colônia alemã no sul do país.
Klauss Spielmann, 60 anos, sobrevivente de Auschwitz, colecionava livros, revistas e jornais sobre o Holocausto. Tinha numa pasta as fotos de nazistas não encontrados e sabia que muitos deles poderiam ter vindo para o Brasil, incluindo o pior deles, o sádico médico de Auschwitz Joseph Mengele. Joinville era a maior cidade de Santa Catarina, essencialmente constituída por descendentes de imigrantes alemães, apesar do nome francês. Não seria difícil imaginar que foragidos nazistas poderiam facialmente se misturar à população local. Spielmann era funcionário do governo do Estado.
- Senhor Pernek?
- Pronto.
- Estou falando de Joinville, no Brasil. Foi difícil falar com o senhor.
- Posso ajudá-lo?
- Soube que está procurando o Sargento Krobe. Eu acho que ele era meu vizinho.
 
No dia seguinte, Perneck e sua equipe chegaram à cidade.
A descrição dos vizinhos conferia. Casado, dois filhos. Vivia recluso. Não tinha amigos. Era mecânico. Foi embora de Joinville após perceber que seu novo vizinho judeu o havia reconhecido. 
Perneck vasculhou a casa de Krobe mas não achou nenhuma pista. O caçador de nazistas estava feliz e entusiasmado. Era 1960. Sua busca teria um fim em breve.
Para onde Krobe teria ido? Teria mudado de cidade? De Estado? De país? Uma grande coincidência: Krobe e Rachel emigraram para o mesmo lugar: o Brasil. Seus tios foram os primeiros a ser avisados. Rachel adoeceu.
Deitado na cama de seu quarto, num hotel em Joinville, Pernek pensava: Krobe estaria com 40 anos. Onde havia aprendido a consertar automóveis? Quem seria sua esposa? Como seria o relacionamento com os filhos? Eles saberiam que o pai era um criminoso nazista? Pernek soube em Joinville que Krobe usava outro nome: Georg Shroeder. Mudaria outra vez de nome?
Mais um ano se passou e não foi encontrada nenhuma outra pista de Krobe.
Tudo o que Pernek não queria aconteceu: a imprensa brasileira descobriu o caso. Jornais e revistas publicaram as fotos e os perfis de Krobe, Rachel Zalinski e Pernek. Agora o nazista saberia que um eficiente caçador estava a sua espreita e desapareceria para sempre.
Uma semana depois, Pernek leu, num jornal de Florianópolis, sobre a morte cruel de um deficiente que morava numa praia distante na capital de Santa Catarina. Era um rapaz afro-descendente que não tinha os braços nem as pernas e segundo testemunhas, gostava de provocar um alemão que quase o havia atropelado. O alemão o havia xingado e desde então, toda vez que se encontravam, o deficiente o xingava de “alemão nojento”, entre outros nomes.
Sua casa foi incendiada com o rapaz amarrado na cama.
Imediatamente, Pernek foi à tal praia, mas a descrição era diferente. O alemão, embora tivesse dois filhos, não mancava e tinha os cabelos negros e criava porcos. Porém, após as reportagens e o assassinato, também havia desaparecido.
Krobe estava muito próximo de Pernek, mas havia escapado, o que deixava o tcheco revoltado. Pernek estava certo que era ele. Havia aprendido a andar sem bengala e pintava os cabelos, óbvio.
Duas semanas depois, novo telefonema, também em alemão.
- Senhor Baldrus Pernek? Tenho motivos para acreditar que Wilhem Krobe está em Sidney, na Austrália.
Foi dada uma minuciosa descrição de Krobe. 
- Quem está falando? – perguntou Pernek.
- Não quero me envolver. Sou um marinheiro e vi Krobe em Sidney.
- Qual o seu interesse?
- Sou judeu.
- Judeu alemão?
- Sim.
- Qual o seu nome?
- Já disse: não quero me envolver. Pegue Krobe, Pernek. Por favor.
No dia seguinte, o caçador de nazistas viajou para Sidney.

1964.
Um cartão e um buquê de flores deslocaram um exército para São Paulo.
Rachel Zalinski havia recebido um cartão, escrito em alemão: “Se ainda me ama, coloque essas flores na janela”.
Sua casa, no dia seguinte, foi invadida por agentes israelenses. O nome da agência israelense de espionagem e contra-terrorismo era Mossad, cujo nome significava “Instituto para Inteligência e Operações Especiais”. Em 1960, eles haviam seqüestrado na Argentina e levado secretamente para Israel o criminoso nazista Adolf Eichmann, onde foi enforcado. 
- Marque um encontro com Krobe, Rachel. Vamos prendê-lo.
Rachel colocou as flores na janela da loja.
No dia seguinte, novo cartão, entregue por um mensageiro.
“Encontre-me no Parque da Luz, amanhã, às 9 horas. Por favor, não leve os agentes israelenses que foram a sua casa, ontem”.
- Vamos observá-lo de longe. Prenderemos Krobe quando ele sair do parque. 
Desde as seis da manhã, 150 agentes estavam nas imediações do Parque da Luz. Era domingo. O próprio parque ficaria lotado. 
Muito nervosa, Rachel começou a andar pelo parque, às 9h10m. Saiu de sua casa às 9h, caminhou pela Rua José Paulino [nome em homenagem a um dos mais importantes empresários republicanos paulistas do século 19] e chegou ao Parque, dez minutos depois.
Às 9h15m, ela recebeu um bilhete de um garoto.
“Você me traiu. Há mais de cem agentes disfarçados por aqui. Você não me ama. Era tudo o eu queria saber”.
Os israelenses vasculharam toda a região e não encontraram vestígios de Krobe. Baldrus Pernek sentiu-se desafiado. “É muito astuto este nazista. Vamos ver quem é mais, ele ou eu”, pensou.

No dia 07 de novembro de 1965, Wilhem foi preso na frente da casa de Rachel. Ela sabia que ele voltaria. Quando o viu com um carrinho de sorvete, na frente de sua casa, foi até lá.
- Quero um sorvete de morango.
Enquanto ele a servia, ouviu a pergunta:
- Eu sempre quis saber: você matou meu pai?
- Desculpe-me?
- Eu sei quem você é, Sargento Krobe. Você matou meu pai?
Ele levantou a cabeça. Após vinte anos, os olhos azuis de Krobe encontraram os olhos azuis de Rachel.
- Espero que não. Eu jamais feriria alguém de sua família. Se matei seu pai, foi por engano ou acidente. Mas, sinceramente, não me lembro.
Nesse momento, quatro automóveis cercaram o carrinho de sorvete e doze homens agarraram Krobe.
- Wilhem Krobe? Você é o Sargento Wilhem Krobe?
Os transeuntes espantaram-se com aquelas pessoas gritando em alemão. Pessoas saíram às janelas de suas casas e portas de lojas.
Krobe permaneceu em silêncio. Decidiram colocá-lo num dos carros, mas Krobe ainda teve tempo de dizer:
- Eu amava você, Rachel. Eu queria dizer isto olhando nos seus olhos.
Krobe resistia a entrar no carro, pois ainda queria dizer:
- E você, Rachel? Você me amava também ou estava apenas se prostituindo?
Rachel nada falou. Só o observou sendo levado.
De dentro do carro, olhando para trás, Krobe gritava:
- Responda, Rachel! Responda, Rachel!
Os tios de Rachel correram para abraçá-la. O carro dobrou a esquina e desapareceu.
Rachel Zalinski não tinha como responder. Ela não sabia a resposta.
Porém, agora sentia-se livre.

II

O campo de concentração onde Krobe estava lotado seria invadido em questão de horas. A cidade estava sitiada pelos soviéticos. Krobe não queria morrer nem ser preso. Simplesmente vestiu roupas civis, encheu os bolsos de ouro e jóias roubados dos prisioneiros e saiu caminhando pelo campo.
Seu último ato, antes de partir, foi despedir-se de Rachel.
Ela estava deitada na cama dele, em seu apartamento. Krobe abaixou-se e beijou sua testa.
Ele não imaginava o quanto sentiria falta dela e o quanto gostaria de dizer a ela que não havia assassinado seu pai. O problema é que não tinha certeza do fato.
Até chegar a Munique, Krobe não viu grandes dificuldades. Era auxiliado pela própria população, a quem oferecia ouro e jóias. 
Sua avó sugeriu que ele fugisse para a América do Sul. Os governantes estavam protegendo os criminosos nazistas, em troca de dinheiro.
Krobe pegou um trem e foi para o porto de Roterdã, na Holanda. Lá, embarcou num navio brasileiro, onde também deixou ouro e jóias.
Tudo isso já havia sido organizado por Himmler, em 1944, ao criar uma rota de fuga para os nazistas, dando origem a uma organização secreta chamada Odessa [Organização dos Membros da SS, em alemão], cuja sede era na Argentina.
Krobe sabia que nunca mais voltaria à Europa.
Quando chegou ao porto de Santos, disse seu novo nome, inventado no navio: Georg Schroeder. No lugar de documentos, entregou 100 gramas de ouro ao agente da alfândega, que também trabalhava para a Odessa. Trabalho que lhe deixou rico.
Krobe hospedou-se numa pensão indicada pelo aduaneiro.
Pela manhã, recebeu a visita de outro alemão.
- Tenho como lhe dar outra identidade. Tenho amigos no governo brasileiro.
E assim, Krobe tornou-se, oficialmente, Georg Schroeder.
- Preciso de um emprego também. – pediu Krobe ao alemão.
O ex-sargento nazista chegou na cidade de São Paulo e foi ao endereço indicado, próximo da Estação da Luz. Uma simples oficina mecânica. O dono da oficina era um italiano, que não lhe fez perguntas.
Em um ano, Krobe havia se tornado expert em mecânica de automóveis. Mas não conseguia se acostumar ao convívio de italianos e negros. Sem falar que o Brasil era uma das maiores colônias judaicas do mundo. Já no navio de Pedro Álvares Cabral veio um judeu, Gaspar da Gama. Depois, outros judeus fugiram das perseguições na Espanha e Portugal. Em 1810, mais judeus chegaram ao Rio de Janeiro. Depois, judeus marroquinos foram para a Amazônia.
Com o fim da segunda guerra mundial, o Brasil passou a receber judeus do leste europeu [asquenazin, como os Zalinski] e também os sefaradin, da Espanha.
O bairro do Bom Retiro, nas imediações da oficina do italiano, tinha milhares de judeus asquenazin, que haviam ocupado o bairro no início do século 20 e que agora estavam recebendo exilados do mesmo grupo. Mais cedo ou mais tarde, algum judeu acabaria lhe reconhecendo, pois fotografias de foragidos nazistas estavam sendo espalhadas pelo mundo e disseminadas entre comunidades judaicas, como a grande comunidade paulistana.
Krobe soube então de um Estado ao sul do Brasil  onde a presença de imigrantes alemã</description>
		<content:encoded><![CDATA[	<p>(Nota do dono do blog: Rynaldo, achei engraçado você postar seu romance num blog que está inativo há quase três anos, mas, vá lá!)</p>
	<p>=====================</p>
	<p>Olá, tudo bem? Estou enviando minha coletânea de contos para sua apreciação. Infelizmente, não tenho como mandar pelo correio, pelo fato de não dispor de nenhum recurso financeiro para isto. Espero que gostem. Ao final da coletânea, há dados autobiográficos. Abraço e muito obrigado!</p>
	<p>DESTILADO DE CÉREBRO DE ZUMBI<br />
autor: Rynaldo Papoy<br />
DESTILADO DE CÉREBRO DE ZUMBI<br />
Método desenvolvido pelo paulista Joel Caetano.<br />
INGREDIENTES<br />
10 kg de cérebro de zumbi in natura [quanto mais envelhecido, maior o teor alcoólico] para 1 litro de destilado [observação: evitar cérebros de zumbis de pessoas que utilizavam medicamentos psiquiátricos ou drogas].<br />
100 gramas de fermento sacharomices e 1 kg de cevada.<br />
100 litros de água.<br />
50 ml de saliva de zumbi.<br />
MODO DE PREPARO<br />
Ferver os ingredientes do mosto a 100 graus por 10 dias.<br />
Se preferir um destilado mais suave, destile o cérebro de zumbi por mais duas vezes.<br />
Acrescente 10g de cocô de bebê zumbi [com até 30 dias de “vida”], sementes de cacau e espinhos de pequi.<br />
Deixe envelhecer em barris de pau-brasil por, no mínimo, quatro anos.<br />
O destilado deve ser tomado puro, de preferência gelado, num copo tipo “shot”.<br />
CURIOSIDADES:<br />
-  Joel Caetano leiloou na Inglaterra o “Super Old Special Zombie Caetano”, produzido com cérebros de zumbis que tinham entre 90 e 120 dias de existência, produzindo o mais poderoso Destilado de Cérebro de Zumbi do mundo, cujas garrafas chegaram a mais de 10 mil euros e teor alcoólico de 97°.<br />
- Está fazendo muito sucesso entre os jovens, nas baladas, o Ice Zombie, produzido nos EUA, que possui 75% de suco de cramberry.<br />
- O produtor espanhol Miguel Angel Vivas produz blendeds de destilados de cérebro de zumbis que fazem muito sucesso em baladas da Europa, onde são tomados on-the-rocks ou no preparo de coquetéis.<br />
- O mais consumido coquetel com Destilado de Cérebro de Zumbi em Nova Iorque chama-se “Britney Spears”. Os ingredientes são 50 ml de Caetano ou Vivas, uvas passas amassadas com sêmen de cavalo e açúcar ou adoçante, angostura e completado com club soda.<br />
- Nas baladas mais populares das periferias brasileiras faz muito sucesso um destilado de cérebro de zumbi clandestino, cuja dose custa apenas R$ 2,00, mas como o sabor é terrível, o pessoal costuma fazer caipirinhas dos mesmos ou simplesmente mistura com tubaína. A polícia suspeita que estes destilados clandestinos são produzidos com zumbis cultivados especialmente para o preparo da bebida.<br />
- Há uma informação não-confirmada de que os russos estariam tentando produzir o destilado com cérebros de esturjão transformados em zumbis. Mas o Professor Johann Schlinder, da Universidade de Munique, especialista em zumbis, garante não haver provas da existência de zumbis não-humanos.<br />
- Devido à queda nas vendas de uísques no mundo inteiro, graças às altas vendagens do Destilado de Cérebro de Zumbi, a Jack Daniels está criando a Zombie Jack, um destilado de milho e cérebro de zumbi.<br />
- O Ministério da Tequila do México ofereceu R$ 30 milhões de dólares para quem conseguir desenvolver uma espécie zumbi do verme do mescal.<br />
Mais detalhes em:<br />
Sobre o destilado:<br />
“A Origem, Produção e Comercialização do Destilado de Cérebro de Zumbi”, de Valdir Medori ou “Destilado de Cérebro de Zumbi, Mais Uma Invenção Brasileira que Conquistou o Mundo”, publicado pelo Ministério da Agricultura do Brasil.<br />
Sobre zumbis:<br />
“Metabolische Aspekte der Umwandlung der Männer in den Zombien”, por Professor Johann Schlinder, ainda sem tradução em português.</p>
	<p>ACIMA DE QUALQUER SUSPEITA<br />
	- Posso deixar minha filha com você?<br />
	Era Ganemélia. Mineira. De Nanuque.<br />
	Veio para São Paulo e era garçonete. Teve uma filha mas não se lembrava com quem. Num período de muitos relacionamentos. Um deles era o pai mas ela não iria pedir DNA de oito homens. E eram todos muito parecidos, a pequena Júlia não se parecia com nenhum e com todos, ao mesmo tempo.<br />
	Ganemélia trabalhava de terça a domingo. Sua filha ficava com sua prima, no Jardim Palmira.<br />
	Era uma segunda. A agência telefonou e solicitou Ganemélia com urgência para uma festa. R$ 50,00. Era dinheiro. Ligou na casa da prima Jandorina, mas só deu caixa postal. Deveria estar na igreja, possuída pelo demônio, como sempre.<br />
	Seu vizinho à esquerda era um homem muito decente. Morava sozinho, só usava terno [sempre o mesmo] e freqüentava a Igreja de São José, no Jardim Paulista. Católico carismático. Tinha uma banca de livros usados, no centro de Guarulhos.<br />
	Quem mais, no Jardim Betel, tomaria conta de Júlia, cinco anos?<br />
	- Claro, claro, vá com Deus. – respondeu Seu Rosalvo, pegando Júlia no colo, por cima do muro.<br />
	Ganemélia só retornaria pela manhã. Festa na Vila Olímpia, em São Paulo.</p>
	<p>	Rosalvo e Júlia assistiam ao Jornal Nacional.<br />
	Quieta, delicada, com uma bonequinha no colo.<br />
	Rosalvo começou com um beijinho em seus cabelos.<br />
	Colocou Júlia em seu colo e passou a mão em suas pernas.<br />
	Levantou seu vestidinho vermelho e contemplou sua calcinha rosa cheia de ursinhos.<br />
	Rosalvo retirou cuidadosamente a calcinha de Júlia e mais suavemente ainda passou os dedos nas carninhas tenras da pequena vulva da menina.<br />
	- Tá fazendo cosquinha. – ela protestou.<br />
	Rosalvo deitou Júlia no sofá, abriu suas pernas e lambeu o inocente órgão sexual da menina até mais de 1 h da manhã. E ela havia dormido por volta das dez horas.</p>
	<p>	Pela manhã, Ganemélia chegou, arrasada de cansaço, como sempre e R$ 50,00 mais rica. Ou R$ 40,00, descontando o dinheiro da condução, paga por ela mesma.<br />
	Bateu palmas no portão do Seu Rosalvo.<br />
	Ninguém respondeu.<br />
	Entrou. Bateu na porta. Nada.</p>
	<p>	A polícia chegou às 7h14m.<br />
	Arrombaram a porta.<br />
	Quando Ganemélia viu Júlia, desmaiou.<br />
	Sobre o sofá, nua, coberta de sangue, com um enorme orifício no lugar da pequena vagina.</p>
	<p>	Rosalvo foi preso no Terminal Rodoviário do Tietê, quando pegava o ônibus para o Acre. Mas ela era paulistano e não conhecia ninguém lá. Só queria fugir para bem longe.<br />
	Foi condenado a 30 anos de prisão por homicídio doloso, lesão corporal dolosa e estupro, com todos os agravantes.<br />
	Após uma tentativa de suicídio, ingerindo inseticida, Ganemélia passou a freqüentar um ambulatório de saúde mental, três vezes por semana e tomar um tarja preta.<br />
	Mas ela queria mesmo era voltar para Nanuque.</p>
	<p>	Quanto a Rosalvo, ma Penitenciária de Guarulhos, masturbava-se lembrando da xoxotinha da maravilhosinha Júlia.<br />
	Só lamentava tê-la matado. Queria tê-la deixado viva para chupar sua bocetinha mais vezes e só fodê-la quando chegasse à adolescência, assim lá pelos 12 anos.<br />
	Por enquanto e pelos próximos 30 anos, teria que se acostumar a lamber outros órgãos e sofrer em si próprio o que fez a menininha sofrer.<br />
	Sem falar nas porradas e na solidão eterna.</p>
	<p>BODAS DE MERDA</p>
	<p>Um casal de velhos sentados numa varanda.<br />
Sente-se um terrível fedor de merda.<br />
A velha olha para o velho e pergunta:<br />
- Meu velho, fui eu ou foi tu que cagou nas calças?<br />
O velho olha para ela e responde:<br />
- Tanto faz, minha velha&#8230;</p>
	<p>BRUNHILDO</p>
	<p>	Brunhildo. Este era o nome dele, que tomou uma decisão. Iria matar alguém naquele domingo de manhã.<br />
	A coisa começou de repente, por volta da meia-noite. Uma irresistível, incontrolável vontade de matar uma pessoa, sem que encontrasse origem alguma para esta vontade.<br />
	Não sentia qualquer obstáculo ético, remorso, pecado, pena ou nojo. Iria enfiar a faca em alguém, pois era a única arma que possuía. Pensando bem, também poderia usar as mãos, mas talvez as mãos não fossem suficientes.<br />
	Não estava preocupado com o depois. Se fosse preso ou condenado espiritualmente, por Deus ou coisa parecida, nada disso lhe causava a menor objeção em seu plano de retirar a vida de uma pessoa naquele domingo de manhã.<br />
	A maldade ou violência jamais havia passado por sua cabeça. Tem gente que é mal sem ser violenta e gente violenta que não é mal. Ele nunca foi uma coisa nem outra. Fez até uma doação para as Casas André Luiz, próxima a sua casa no Parque Continental, em Guarulhos.<br />
	5h30m da manhã era um bom horário.<br />
	Ele saiu de casa com a faca guardada sob um casaco. Era uma faca velha, deliberadamente escolhida por não ser a mesma faca utilizada para se fazer comida. Era quase um instrumento utilizado em construção civil, pois ele se lembrava de ter cortado uns fios com ela, nada mais do que isto. Não estava afiada mas continuava uma boa faca para se matar alguém, ele pensava.<br />
	Também não se considerava um psicopata, daqueles que precisam matar alguém para se sentir bem ou esquizofrênicos que matam porque receberam ordens de alguém ou algo imaginário, como uma acelga.<br />
	Pois é, uma acelga. Esta imagem lhe trouxe um sorriso aos lábios. Já pensou alguém dizer que teve que matar a outrem por ordem de uma acelga?<br />
	Seria curiosidade? Não, também não era curiosidade, pois já tinha visto gente morta antes e se enojou tanto quando qualquer outra pessoa.<br />
	Ficou aborrecido por estar tentando analisar a si próprio e decidiu simplesmente cometer o ato, sem mais delongas.<br />
	As pessoas do bairro ficariam impressionadas.<br />
	Brunhildo tinha um nome esquisito mas era uma pessoa normal. Fiscal de ônibus, 47 anos, torcedor do São Paulo, casado, pai de três filhos dentro do casamento e um fora, tinha casa própria construída por ele mesmo. Ia à missa uma vez por mês, quando não estava com preguiça de andar três quadras até a igreja mais próxima.<br />
	Frio. Uma leve garoa. Um chuvisco, na verdade. Outono, quase inverno.<br />
	Não iria escolher a vítima, mas presumia que naquele horário encontraria no máximo donas de casa comprando pão na padaria ou um adolescente retornando da balada ou algum garçom coitado que ficou uma hora esperando o ônibus na Estação Tucuruvi.<br />
	Ou então&#8230; algum velhinho levando um cachorro vira-lata para cagar. Lá vinha ele, descendo a rua.<br />
	Brunhildo se escondeu atrás de um muro.<br />
	Quando ouviu passos, retirou a faca da cintura.<br />
	No momento em que o velhinho, que ele já tinha visto e se chamava Aderbal, Oduval, Edernal, alguma coisa assim, passou por ele, Brunhildo desferiu o primeiro golpe.<br />
	Uma facada vertical, na altura do ouvido, da esquerda para direita, que fez espirrar sangue pela calçada.<br />
	O velhinho caiu, gritando uma espécie de socorro pouco audível, pois ainda estava surpreso e apavorado, segurando o corte com a mão direita, pois com a esquerda segurava a guia do vira-lata.<br />
	Este começou a latir e tentar morder Brunhildo.<br />
	Brunhildo posicionou-se com as pernas abertas sobre o velho e segurou a faca, com a ponta virada para baixo, com as duas mãos. Parecia que iria sacrificar um porco.<br />
	Cravou a faca na altura do peito do ancião e a faca ficou tão bem cravada que ele não conseguiu soltá-la.<br />
	O pobre coitado deu um último urro e desfaleceu.<br />
	O cachorro continuou latindo e tentando morder a calça e o sapato de Brunhildo, com seus dentes pouco úteis.<br />
	Brunhildo afastou-se e ficou a dois metros do corpo, observando-o, sem que seu cérebro fosse tomado por qualquer pensamento, nem sequer satisfação, muito menos arrependimento.<br />
	Brunhildo sentou-se no degrau de uma casa e ficou assim, esperando alguma coisa acontecer.<br />
	O que aconteceu foi que os vigilantes do bairro ouviram os gritos e aproximaram-se em suas motos. Sacaram suas armas e obrigaram Brunhildo a deitar-se no chão.<br />
	A polícia e o resgate foram acionados.<br />
	Perguntaram a Brunhildo o porquê de ter feito aquilo e ele respondeu que não sabia.  Deu a mesma resposta a sua família.<br />
	Foi encaminhado a um manicômio judiciário, onde permaneceu quatro anos. Foi condenado por tentativa de homicídio doloso, pegando a pena máxima de 14 anos, mas saiu em liberdade condicional após 4.<br />
	Por sugestão da família, mudaram-se de cidade, pois se voltasse ao Parque Continental, em Guarulhos, seria morto.<br />
	A vítima sobreviveu, pois não foi atingido nenhum órgão letal de seu corpo. A facada no pescoço pegou no músculo abaixo da orelha e a do peito pegou de raspão no coração e pulmão esquerdo, algo que foi resolvido com boas cirurgias.<br />
	O velhinho, porém, nunca mais saiu com seu cachorro vira-latas às 5h30m da manhã de domingo. Nem nunca mais andou sozinho na rua<br />
	Brunhildo freqüentou uma psicoterapia em grupo, num posto de saúde, por dois anos, onde praticamente não falava nada. Nunca mais teve vontade de matar ninguém e se tivesse, não iria tentar cometer o ato.<br />
	Decidiu por conta própria largar a terapia.<br />
Continuou trabalhando.<br />
Por volta dos 60 anos, foi abatido por um violento arrependimento.<br />
Um dia, chegou em casa mas antes de entrar, sentou-se no degrau de entrada e caiu num choro profundo, murmurando para si:<br />
- Que merda que eu fiz&#8230; que merda que eu fiz&#8230;<br />
CHOFER DE FROTA</p>
	<p>Era uma sexta-feira fria e chuvosa. Estava eu procurando passageiros na Avenida São João. Esta hora sempre tem uma puta, um traveco que arranja um cliente e consigo uma corridinha de dez pilas, quinze pilas.<br />
	Trabalhar em frota é assim. Ou roda de táxi o dia e a noite toda ou não paga as contas.<br />
	Alguns peões passam a noite toda esperando um busão no ponto, que só vai passar quatro, quatro e meia da manhã. Dá dó. Mas a vida é assim mesmo. Estou de carro, abrigado da chuva. Meu táxi tem ar condicionado. Mas minha vida é uma merda do mesmo jeito. Deus sabe o que já passei como taxista.<br />
	Assaltos, bêbados que não sabem onde vão. Um dia um bêbado que se dizia diretor de cinema&#8230; qual era o nome dele mesmo? Dioclécio? Dionísio? Uma coisa assim. Me fez rodar a cidade toda em busca sei lá do que. A corrida deu R$ 235,00. Ele simplesmente disse que não tinha como pagar. Chamei a polícia. Os policiais conversaram com ele, abriram a carteira dele, arrancaram R$ 50,00 e me deram. Falaram para eu voltar na casa dele no dia seguinte e tentar cobrar, caso contrário, deveria procurar o Tribunal de Pequenas Causas.<br />
	Desisti. O tempo que perderia no tribunal me custaria mais do que R$ 200,00.<br />
	A noite prosseguiu. O frio aumentou, junto com a chuva.<br />
	Pela terceira vez que passei naquele ponto perto da Love Story, a moreninha estava lá. Arrepiada de frio. Acabaria sendo assaltada por um nóia. Resolvi parar o táxi.<br />
	- Para onde você vai?<br />
	- Santana.<br />
	- Eu moro lá. Estou indo para casa. Eu te levo por R$ 10,00.<br />
	- Tenho não, seu moço.<br />
	- R$ 5,00?<br />
	- Só tenho um bilhete de ônibus.<br />
	- Olha, vou quebrar seu galho. Vou te levar de graça e outro dia que a gente se encontrar você me dá R$ 10,00.<br />
	- Jura que vai fazer isto, moço?<br />
	- An-han. Entra aí.<br />
	- Ai, Jesus te abençoe.<br />
	A morena entrou no táxi.<br />
	Eu não morava em Santana, morava no Jardim São Luís. Rigorosamente do outro lado da cidade.<br />
	- Ainda bem que tem gente boa nesse mundo. – ela disse.<br />
	Partimos.<br />
	- Tem namorado?<br />
	- Não.<br />
	- Nem fica com ninguém?<br />
	- Não.<br />
	- Por quê?<br />
	- Não sei.<br />
	- Mas você é muito bonita. Deve ter um monte de gente querendo namorar com você.<br />
	Ela sorriu.<br />
	- Eu sou um.<br />
	- Hein?<br />
	- Está com muita pressa de chegar em casa?<br />
	- Moço, se está com más intenções, é melhor me deixar aqui mesmo.<br />
	- Não está com fome?<br />
	Ela não respondeu. Ficou séria.<br />
	Eu não iria perder a noite.<br />
	Perguntei onde era sua casa. Ela me falou. Santana era um lugar sossegado. Ruas tranqüilas, escuras por culpa das árvores.<br />
	Antes de chegar na sua casa, encostei. Ela tirou o cinto de segurança. Iria fugir do táxi.<br />
	De repente um farol alto me assusta. Um camburão parou atrás de mim. Polícia.<br />
	- Fala que sou seu namorado.<br />
	- Vou falar que você quer fazer maldade comigo.<br />
	- Eu estouro sua cabeça. Olha isso.<br />
	Levantei a camiseta e mostrei meu revólver na cintura.<br />
	- Ai, meu Deus&#8230; ela disse.<br />
	Os policiais se aproximaram, um de cada lado do carro.<br />
	- Não dá bandeira, não dá bandeira. – falei a ela.<br />
	Abri o vidro.<br />
	- Boa noite. Nós somos namorados. – adiantei.<br />
	O policial do meu lado perguntou:<br />
	- Está tudo bem, moça?<br />
	- Está sim, ele é meu namorado.<br />
	Mostrei os documentos a eles. Pegaram nossos RGs e levaram para a viatura, onde constataram nossas fichas limpas.<br />
	O policial devolveu os documentos. Pediu para tomarmos cuidado e partiram com o camburão.<br />
	Olhei para ela. Meu pau estava duro.<br />
	- Me chupa. – falei.<br />
	- Moço, não faz isso comigo não.<br />
	- Vai perder a vida por causa de uma chupada que não quer me dar? – falei, enquanto sacava o revólver com a mão direita e com a esquerda, tirava meu pinto duro para fora da calça. Ela estava olhando para o outro lado. – Pode começar.<br />
	Titubeante como alguém que tem que chupar um pau com um revólver na cabeça, ela se aproximou devagar, tremendo toda.<br />
	- Desse jeito não dá. Chupa com gosto, caralho! – falei, apertando o cano do revólver na cabeça dela.<br />
	Aí ela chupou com gosto mesmo. Parecia profissional.<br />
	De repente, achei que ela estava gostando. Enquanto ela me chupava, eu passava as mãos em suas tetas e sua bunda. Gozei dentro da sua boca.<br />
	- Não cospe. Engole tudo. – botei o revólver na cabeça dela de novo.<br />
	Ela engoliu.<br />
	- Posso ir embora agora? – ela disse.<br />
	- Não, estamos só começando.<br />
	“Central para 015”.<br />
	Meu rádio.<br />
	- 015. – atendi.<br />
	“Passageiro na Love Story precisa de corrida até Cumbica”.<br />
	Nossa, corridão. Cem paus brincando.<br />
	- Tenho que ir. – falei a ela. – Me dá seu telefone.<br />
	- Não tenho.<br />
	- Nem no trabalho?<br />
	- Não. Não lembro.<br />
	- Você trabalha onde?<br />
	- Num bar da São João. Lá onde você me pegou.<br />
	- Olha, faz o seguinte. Fica com meu cartão e me liga amanhã, tá bom? Mas é para ligar mesmo. Se chamar a polícia, já sabe o que vai acontecer com você.<br />
	Ela desceu do táxi.<br />
	No dia seguinte, meu celular toca. Era ela. Não podia ser. Só poderia ser armação. Sinceramente acreditei que ela não iria me ligar e ainda iria chamar a polícia. Achei-me um verdadeiro idiota em dar o meu cartão a ela.<br />
	Peguei a Via Dutra e me mandei. Quando cheguei em Jacareí, deixei meu táxi numa rua deserta.<br />
	Fui a um ponto de ônibus na estrada e esperei até umas seis da manhã, quando passou um ônibus coletivo para São José dos Campos. Comprei uma passagem para Belo Horizonte. Era o primeiro ônibus que iria passar, uma hora depois.<br />
	Desci em Contagem. Hospedei-me num hotelzinho perto da rodoviária.<br />
	E agora, o que eu faço da minha vida?<br />
	Que caralho ser homem e ter tesão. A gente faz cada merda.<br />
MALDITO PEIDO</p>
	<p>Ela chegou na festa e disfarçadamente procurou por seu amado: seu professor de filosofia, por quem estava apaixonada.<br />
Ela era estudante do primeiro ano de psicologia e não imaginou que um professor de filosofia poderia ser um morenaço daqueles, que parecia dar a aula exclusivamente para ela.<br />
Por isso, na festa da faculdade, naquela balada chique, ela colocou a melhor roupa, a melhor maquiagem e ainda passou umas horas lascando uma chapinha no cabelo. Não deixaria escapar seu professor de filosofia.<br />
O problema é que naquele sábado, estava sofrendo de uma terrível prisão de ventre que a estava até deprimindo. Mas lutaria para vencer o problema, afinal seu objetivo era bastante nobre: ficar com o professor de filosofia, de preferência na frente de todo mundo, o que deixaria o beijo ainda mais gostoso. Pensando bem, se ele quisesse comê-la naquela noite mesmo, daria tranquilamente.<br />
Encontrou-o, cumprimentou, ficou fazendo aquele joguinho de “tô a fim de você mas não muito”. Apareceram outras pessoas para conversar mas ela deu um jeito de ficar por perto do professor.<br />
No entanto, sua barriga parecia estar crescendo, com aquele gás sendo produzido desesperadamente. Pediu licença e foi ao banheiro. Lotado. Não iria peidar ali na frente de todo mundo. Uma solução seria entrar na pista de dança lotada, peidar e sair. Ninguém perceberia.<br />
Quando chegou na pista de dança, desistiu de novo. Tinha muita gente conhecida ali. E o pior é que quando estava de saída, apareceu o professor de metodologia científica, que resolveu conversar um pouco sobre amenidades. E ela ficou ali, ouvindo sua longa conversa, que parecia estar durando já umas duas horas.<br />
E o gás em sua barriga aumentando, aumentando&#8230;<br />
Quando conseguiu se desvencilhar do professor de metodologia, passou a andar pela balada, em busca de outro banheiro ou de algum lugar onde não houvesse nenhum conhecido, que a pararia para conversar.<br />
Achou um local tranqüilo, perto da entrada da cozinha, mas quem estava andando por ali era justamente o professor de filosofia, que a pegou e a beijou, sem que ela pudesse esboçar qualquer reação.<br />
O beijo foi longo e muito bom&#8230; embora ela não estivesse conseguindo segurar mais o peido. Iria explodir. Iria peidar ali na frente do gostosão e seria a morte!<br />
Não estava agüentando mais. O peido parecia ter vida própria, pressionando seu esfíncter como uma turba de bárbaros querendo romper os portões de um catelo.<br />
O professor a apertava forte e isto pressionava sua barriga ainda mais.<br />
Ela pediu licença e disse que voltaria logo logo. Saiu correndo. Tinha que achar algum lugar para peidar.<br />
Sem perceber, deu uma volta enorme e praticamente voltou ao mesmo lugar, onde achou uma saída para um jardim. Como estava muito frio, havia pouca gente ali. A estudante de psicologia olhou a sua volta e dirigiu-se à extremidade do jardim, onde aparentemente não havia ninguém.<br />
E foi lá mesmo que soltou a bomba. Um longo e ruidoso alívio do gás que estava preso em seu intestino grosso. Quanto tempo durou aquele peido? Oito segundos? Dez segundos? Não sabia. Só sabia que foi o melhor peido de sua vida. Não bastasse a eliminação daqueles litros de gás podre de intestino, ainda deu um arremate, um flato retardatário.<br />
Seu professor de filosofia, quando viu a moça dirigindo-se ao jardim, ficou curioso e decidiu segui-la. Sem que ela tivesse percebido sua presença, testemunhou o peido mais longo que já contemplara em sua vida, cuja música da balada mal conseguiu ocultar o ruído.<br />
Quando a moça acabou, o professor teve vontade de bater palmas, mas achou que seria humilhante demais para ela.<br />
A estudante, suspirando de alívio, olhou enfim para trás e viu o professor.<br />
- Que você está fazendo aí? – ela perguntou, espantada.<br />
- Eu vi você entrando no jardim e resolvi te seguir.<br />
- O que você viu?<br />
- Vi isto que você fez. - disse ele, na maior inocência, achando que ela daria risada.<br />
- Ah, meu Deus, que vergonha&#8230;<br />
Ela saiu correndo. Seu professor tentou segurá-la, dizendo que não havia problema nenhum, mas ela ficou constrangida demais.<br />
Desvencilhou-se dos braços dele e sem se despedir de ninguém, deixou a balada e nunca mais voltou à faculdade. Ninguém a achou em sua casa ou em seu trabalho, pois ela também pediu demissão e mudou de casa para local ignorado.</p>
	<p>MORANGOS DE INDAIATUBA</p>
	<p>	Seu ex-namorado a trocou por uma namorada mais bonita. “Cafajeste!”, dizia dele. Mas, no fundo, ela sabia que o cara se mandou porque a paixão acaba mesmo e ponto final. Ele lhe deu o fora, mas poderia muito bem ter sido o contrário. E não admitiria que ele a chamasse de cafajeste. Nem nenhum homem.<br />
	Agora ele tinha um carro e estava na faculdade de sociologia. “Que faculdade de bicha!”, falava a desprezada. Ele conheceu a vagabunda no emprego. Era vendedor de baterias numa loja da Teodoro Sampaio. A menina estudava bateria na escola em cima da loja. Ele também tocava bateria numa banda cover. “Músico frustrado, toca em banda cover”, continuava praguejando.<br />
	Fez questão de ver a namorada dele. Soube através de uma amiga, que passou de ônibus na rua e o viu atracado com a moça, na frente da loja.<br />
	A ex ficou meio disfarçada, fingindo ver revistas numa banca.<br />
	“Hippie vagabunda. Vai ver nem toma banho”, acreditou.<br />
	A cara de débil mental feliz do ex, abrindo a porta do Gol branco para a hippie nojenta foi o que causou mais ódio na balconista da lanchonete Suco de Ouro, no Hospital das Clínicas.<br />
	Dois meses depois, a hippie entrou na lanchonete. Sua antecessora no coração do baterista fingiu que não a viu e virou as costas.<br />
	- Amiguinha! – chamou a hippie.<br />
	A balconista teve ímpetos de esfaquear a filha da puta. Virou-se com um olhar de história em quadrinhos.<br />
	- Eu queria um suco de morango. Com leite.<br />
	Sem dizer uma palavra, a atendente foi à cozinha, retirou seu absorvente e espremeu o sangue no liquidificador. Colocou alguns morangos congelados, leite e açúcar.<br />
	Levou o copo à namorada do ex e observou-a tomar um gole com canudinho. A hippie fez uma careta:<br />
	- Que sabor diferente.<br />
	- São morangos de Indaiatuba. – respondeu.<br />
	A “imbecil”, como a balconista considerava a namorada do ex, tomou tudinho. Foi observada com um quase sorriso.<br />
	A hippie pagou o suco e saiu meio aborrecida, insatisfeita com o sabor esquisito do suco.<br />
	A moça abandonada lavou o copo com um grande sorriso, desta vez.<br />
	“Morangos de Indaiatuba&#8230; de onde tirei esta idéia?” – divertia-se.<br />
O BILHETINHO</p>
	<p>	Sabe aquele ponto em frente à igreja da Vila Rosália? Eram quatro da manhã. Ou quatro e pouco. Cheguei perto do filho da puta, apontando-lhe [gostou da ênclise?] o cano e disse:<br />
	- Vou te matar, filho da puta!<br />
	- Por quê?<br />
	- Por que eu quero, filho da puta!<br />
	- Quer me matar por quê?<br />
	- Porque eu estou com vontade! [Eu não tinha o hábito de falar bonitinho daquele jeito, “eu estou com vontade”. Normalmente, eu diria: “Tô cum vontade”].<br />
	- E por que justo eu?<br />
	- Por que você tem cara de filho da puta!<br />
	Descarreguei o cano em cima dele. Seis pipocos que ecoaram pela madrugada [sou poeta!].<br />
	Já ia caminhando em direção ao Lago dos Patos, quando reparei num volume. Talvez uma marmita que o filho da puta carregava.<br />
	Era. Embrulhada numa sacola do Barateiro. Abri. Estava quentinha. Arroz, feijão, picadinho e batatas. Seria o meu jantar. Quando guardava de volta na sacola, percebi um bilhetinho. Li:<br />
	Não vai chegar tarde, hein? Te amo!<br />
	Aqui foi demais. Não agüentei, sentei no meio-fio e comecei a chorar.<br />
O FANTASMA</p>
	<p>	Eu morava num prédio com várias quitinetes.<br />
	Uma noite, uma mulher bateu na minha porta, desesperada. Dizia que havia um fantasma na quitinete dela.<br />
	Ela usava uma camisetinha da Minnie e um shortizinho de florzinhas, através do qual eu via a sombra de sua calcinha.<br />
	No cinco meses que eu morei ali, vi aquela moça poucas vezes. Eu chegava em casa próximo de meia noite, por ser segurança de uma farmácia. Via poucos vizinhos.<br />
	Não vou dizer que a vizinha era uma deusa. Não era nem a mais bonita do meu andar. Mas tinha aquele jeito de quem não dava umazinha há um certo tempo. Bom, foi o que eu achei, pelo menos.<br />
	Fantasmas? Ora fantasmas!<br />
	Falei para a moça que era impressão dela, que ali não tinha fantasma nenhum.<br />
	Nem velho era o prédio.<br />
	Tanto insistiu que eu fui lá ver o fantasma.<br />
	E não é que tinha um fantasma mesmo?<br />
	Perto da cama dela, uma figura antropomórfica de pé, coberto com um lençol branco. Estava imóvel. Que será que ele estava querendo?<br />
	Falei para a moça que se ela quisesse dormir na minha quitinete, poderia ficar á vontade. Ela topou.<br />
	Fechei a porta do apezinho dela, após apagar a luz, por sua recomendação. Passei até a chave na porta. Imaginei que assim o fantasma iria embora.<br />
	Levei a mulher para meu apartamentinho e mal ela entrou já foi me abraçando, dizendo que eu era seu herói&#8230; que tem de gente louca nesse mundo.<br />
	Se eu comi ela? É claro, ué.<br />
PORRA, MANO, ESSE SOM É MUITO DEZ </p>
	<p>Qual é o nome desse som? Mistura de hard rock com rap. Hard rap? É a versão branca do rap. É, mano. Beastie boys, mano. Red hot, mano, é, mano, morô? Red hot, mano.<br />
É, mano, é isso aí, mano.<br />
Tinha um mano junto de mim. Meio japonês, meio preto. Não vi direito a cara dele. Pareciam dois. Tava de boné e mais louco que eu.<br />
Aí, mano, vou tomar outra cuba.<br />
Podicrê, mano.<br />
Fomos lá. Cacei minhas últimas moedas e pedi outra cuba. O mano pediu sei lá o quê.<br />
Continuamos curtindo aquele puta som, meu.<br />
Tu mora onde, mano?<br />
No rosália. E você?<br />
No paulista. Nem sei como é que eu chego lá, mano.<br />
É, mano. Nem tem bumba essa hora, meu.<br />
Nem sei onde é que eu tô, mano.<br />
Podicrê, mano.<br />
Meu. Peraí que vou vomitar.<br />
Meu. Fui. E vomitei, meu.<br />
Porra, meu, eu e o mano japonês preto começamos a andar, meu. Despedi dele, no lago dos patos, tá ligado? E deitei num banco, tá ligado?<br />
Não, vou para casa, morô?<br />
Como cheguei no paulista, não sei, meu. Só sei que a mina tava morta, meu. Cheia de sangue, mano, e meus sons e a tv foram levados. Cara. Puta que pariu.<br />
Fodeu.<br />
RELATO</p>
	<p>Conheci uma atriz de teatro e levei-a a um restaurante.<br />
Odeio mulheres que me levam para a cama. Tenho instinto de caçador, não de caça. Mas quando aquela atriz de teatro resolveu me convidar para dormir na casa dela, resolvi aceitar pelo único motivo de que seria a primeira atriz de teatro com quem eu me deitaria. Inseriria a informação no meu currículo.<br />
Ela morava numa quitinete, isto é, a porta de entrada levava diretamente a sua cama.<br />
A atriz de teatro me jogou em seu leito, abriu uma gaveta e tentou me algemar na cabeceira.<br />
Mas eu retirei as algemas das mãos dela e sob seus protestos e tentativas de fuga, fiz com ela o que ela queria fazer comigo.<br />
Ignorei sua insistência em ser desalgemada.<br />
Olhei a volta. Havia um livro ali que me parecia interessante: “A Psicologia dos Contos de Fadas”, de Jung. Retirei-o da cômoda onde ela depositava seus livros e outras tralhas, sentei-me em sua confortabilíssima poltrona e li o livro até a página 44, quando a polícia chegou, mobilizada pelos vizinhos, assustados com seus gritos de socorro.<br />
Enfim fui algemado. Ao sair do apartamento dela, seguro pelo policial, dei boa noite à atriz de teatro.<br />
O delegado de plantão da 81ª delegacia me perguntou o porquê de tê-la algemado. Respondi a verdade. Ela queria me algemar mas eu quem a algemou. Nada mais.<br />
O delegado me liberou.<br />
Entrei num táxi e como não iria conseguir dormir, resolvi descer numa lan house poucos quarteirões depois para jogar um pouco.<br />
Às 5h30m, caindo de sono, chamei outro táxi e fui para casa.<br />
Nada mais emocionante aconteceu naquela semana.</p>
	<p>SÓCRATES – PARTE II</p>
	<p>	Um discípulo de Sócrates bate a uma porta, segurando um galo.<br />
	- Esculápio! Esculápio!<br />
	Um minuto depois, Esculápio abre a porta, sonolento, coçando o olho.<br />
	- Que que foi?<br />
	- Aqui está o galo, que lhe devíamos.<br />
	Entrega o galo.<br />
	- Até que enfim, hein?<br />
	- Desculpa a demora.<br />
	- Tudo bem.<br />
	- Até logo.<br />
	- Até.<br />
	O discípulo vai embora.<br />
	Esculápio põe o galo junto aos outros e volta a dormir.<br />
UMA HISTORINHA SUBURBANA</p>
	<p>	Eu era auxiliar de mecânico. Aprendiz.<br />
	Um amigo do meu pai, que tinha uma oficina, Getúlio, me descolou um trampo.<br />
	Ia ficar me pagando salário mínimo mais almoço até eu aprender a ser mecânico. Para desespero de minha mulher, que não queria que eu ganhasse um salário daqueles. Que eu poderia fazer, se tinha ficado nove meses desempregado?<br />
	Fui funcionário público oito anos, entre 18 e 26 anos, no DNER, mas me mandaram embora, acusado de ser desrespeitoso com o novo chefe. Só porque eu o mandei tomar no cu.<br />
	Minha mulher, com quem eu era casado há cinco anos, mal estava falando comigo. Ela dizia estar sustentando a casa, com seu salariozinho de 300 reais de caixa de uma padaria em Guarulhos.<br />
	Acho que, apesar da promessa de “na riqueza e na pobreza”, os casais só se dão bem quando não há problema financeiro.<br />
	Se não bastassem as dificuldades, a irmã de minha mulher, Jacira, veio do Amapá passar o verão em casa. Minha mulher nem sequer me avisou.<br />
	Estava um pedaço de mau caminho aquela menina. 14 anos. Um tesão. Macacos me mordessem!  Eu não a via desde os seus dez anos.<br />
	Botou a menina para dormir na sala.<br />
	Ora, o horário em que eu e Francisca trabalhávamos era diferente.<br />
	Eu, das 10 às 19 horas ou 20 horas. Chiquinha, das 16h à 0h, mas ela fica sempre até quase 1h da manhã, quando pegava o ônibus até o Tucuruvi e de lá, até o Horto, onde morávamos. Chegava em casa quase às 2h. Foi assaltada na rua 17 vezes em dois anos.<br />
	Não demorou muito, comecei a paquerar Jacira. E vice-versa.<br />
	Eu a observava tomando banho, pelo buraco da fechadura e ela vivia encostada em mim.<br />
	Em uma semana ela passou a andar de camiseta e calcinha em casa, antes que minha mulher chegasse.<br />
	Eu precisaria enfiar meu pau naquela bunda.<br />
	E tudo começou com uma massagem que ela resolveu fazer nos meus pés.<br />
	Fiz questão de não esconder meu pau duro sob a cueca samba-canção que eu usava.<br />
	Em cinco minutos, ela chupava o dito-cujo. E me deu o cu com gosto.<br />
	Durante todo o verão não falei com minha mulher e comi a jovem irmã dela.<br />
	Resolvi ir embora com Jacira.<br />
	Prestei outro concurso, desta vez na prefeitura de São Bernardo do Campo.<br />
	Fui para lá com Jacira.<br />
	Já fazem quatro anos. A família delas procura a gente até hoje.<br />
	Jacira foi trabalhar num supermercado, no setor de frios. É um grande mercado e ela ganha bem. Quase 500 paus.<br />
	Tivemos um filho. Quando acabou a sua licença-maternidade, tive que arranjar alguém para cuidar de Matias.<br />
	A filha de 14 anos de uma vizinha foi oferecida para ser sua babá por quatro horas por dia, depois que Jacira saía para trabalhar. Eu chegava e dispensava a menina.<br />
	Mas não sem antes dar meu pau para ela chupar. E chupa bem que só a porra.</p>
	<p>DUAS EXPERIÊNCIAS DO CARALHO<br />
Do livro “O Joelho Direito de Jesus”,<br />
De Rynaldo Papoy</p>
	<p>Tenho 30 anos e passei por duas experiências do caralho em minha vida.<br />
Na primeira vez, fui tenente da Rota.<br />
Cresci no Parque Continental, em Guarulhos. Minha família foi uma das primeiras a chegar aqui. Durante toda minha infância sonhei em ser da Rota para cacetar bandidos e às vezes matá-los.<br />
Aos 14 anos entrei na academia da Polícia Militar. Aos 19, formei-me Tenente da Rota. Ronda Ostensiva Tobias de Aguiar. Já não era tão violenta quanto antes. Nos tempos do Maluf, diziam que era uma instituição radical, assassina. Franco Montoro e Orestes Quércia a suavizaram, mas havia a perspectiva de que se Maluf voltasse ao governo ou elegesse-se o delegado Fleury Filho, a Rota voltaria aos tempos áureos.<br />
Foi o que aconteceu. Fleury devolveu a Rota o seu poder. Eu era lotado na zona noroeste de São Paulo. Perus e adjacências. A terceira região mais violenta da capital. Mas ainda muito violenta.<br />
Aos 21 anos, me casei com minha namorada, que estava grávida. Sirlene. Eu me chamo Glauco. Nasceu meu filho, Plínio. Nome do meu avô, falecido quando eu tinha cinco anos.<br />
Foi o que mais gostei de fazer na vida. Voltar para casa, depois de arrebentar ladrões e ver cair suas casas e ser recebido por aquela morena e aquele pivetinho.<br />
Meu filho só viveu três anos. Morreu de leucemia. Não preciso dizer o quanto fiquei deprimido. Mas procurei manter a sanidade e voltei ao trabalho uma semana depois. Já minha mulher pirou de vez e oito meses depois da morte de Plínio, mesmo fazendo tratamento, pegou meu revólver e deu um tiro na cabeça. Levei-a ao hospital mas ela morreu no caminho.<br />
Fiquei três meses sem conseguir trabalhar de novo, vegetando na minha casa.<br />
Tentei voltar a trabalhar mas nunca mais fui o mesmo. Chorava dentro do camburão. Chegava em casa e quando pensava nos ladrões que eu havia espancado ou executado, não podia nem dormir.<br />
Não teve jeito. Desisti de ser policial militar, muito menos da Rota. Pedi baixa, montei uma oficina mecânica e comecei a estudar engenharia.<br />
Senti-me melhor.<br />
Ainda no primeiro ano, conheci Lorena. Uma psicóloga lésbica. Conheci-a na locadora de vídeo.<br />
Três meses assediando-a (com classe, lógico) e consegui beijá-la e comê-la. Foi muito bom.<br />
Não trepava há meses, desde a morte de Sirlene. Lorena, além de belíssima, era muito inteligente e começou a vir quase todo dia em casa até que convidei-a a morar comigo. Aceitou. Não sei se voltou a transar com mulheres.<br />
Foi então que me contou outra coisa. Era uma ex-dependente de cocaína, que tomava calmantes diariamente para não voltar ao vício. Caramba&#8230;<br />
Formei-me e resolvi mudar de São Paulo. Ela gostou da idéia. Comprei um terreno em São Joaquim, em Santa Catarina e resolvi plantar cebola e alho. Não sei porquê.<br />
Nunca fui engenheiro.<br />
Um ano se passou.<br />
Sofri um acidente de moto e quebrei o fêmur direito. Assim, imobilizado, vi outra merda acontecer.<br />
Lorena perguntou se um primo seu poderia ficar uns dias lá em casa de férias. Falei: &#8220;Tudo bem&#8221;.<br />
Era mentira. O desgraçado estava fugindo da polícia, acusado de matar um policial! Soube disso porque sei reconhecer um pilantra a 200 km de distância e pedi sua ficha, mas sem dizer que ele estava em casa.<br />
Arrastando-me numa cadeira de rodas, resolvi pedir a Lorena que mandasse seu primo Vinícius embora ou eu o denunciaria.<br />
Achei os dois no galinheiro&#8230; cheirando cocaína. Que filho da puta! Botei a mão na cintura mas não havia revólver nenhum. E ele tinha um .380 na cintura. E estava completamente louco. Lorena também. Dei meia volta e rastejei para casa. Liguei a tv.<br />
No dia seguinte, acordei com Lorena a meu lado, dormindo nua e descoberta, apesar do frio. Fazia uns 2°. Teria fodido com o pilantra? Capaz.<br />
Neste instante, Paulão, meu funcionário, bateu na porta. Cobri a bunda de Lorena e mandei abrir a porta. Ele botou sua cara barbuda no quarto e disse: &#8220;Seu Glauco, a polícia está aí&#8221;.<br />
&#8220;Fala que eu já vou&#8221;.<br />
Fui à varanda, onde uns policiais civis de Santa Catarina me esperavam.<br />
&#8220;Tenente Glauco?&#8221;<br />
&#8220;Ex-tenente&#8221;.<br />
Perguntaram de Vinícius e não sei porquê, falei que não sabia de nada. E ainda completei: &#8220;Nem que fosse irmão da minha mulher, assassino de tira eu arrancava os ossos do filho da puta&#8221;.<br />
Foram embora.<br />
Paulão ficou olhando para mim eu eu fiz uma careta que poderia significar: &#8220;Fazer o quê?&#8221;.<br />
Voltei para dentro e botei um vídeo. Acho que era Exodus, de Otto Preminger. Dormi sentado.<br />
Lorena me acordou. Eu estava irritadíssimo. Dei-lhe uma porrada na cara que a fez voar longe.<br />
Fiz uma bolsa, troquei de roupa e fui para Buenos Aires.<br />
Terminei o tratamento lá. Fiz fisioterapia em São Paulo.<br />
Bem, foi tudo o que aconteceu.<br />
Reabri a oficina mecânica, no bom e velho (mais ou menos) Parque Continental. </p>
	<p>Está Escuro<br />
 	 	Por Rynaldo Papoy<br />
<a href="mailto:rynaldopapoy@yahoo.com	">rynaldopapoy@yahoo.com	</a> 	   </p>
	<p> 	Egídio era filho único. Nasceu no Piauí em 1960 e em 1981 mudou-se para São Paulo como tantos nordestinos, em busca de uma vida melhor.<br />
Trabalhador. Foi ser pedreiro e em 1982 voltou à escola. Depois foi trabalhar numa fábrica. Começou como faxineiro, depois ferramenteiro.<br />
Em 1984 terminou o primeiro grau e pôde alugar uma casa melhor, perto do trabalho. Tinha dois quartos e uma sala bem espaçosa. Um quintal bom e uma árvore bonita. Aos poucos foi mobiliando a residência. Tv, aparelho de som, sofá, mesa, geladeira e fogão para as receitas que trouxera do Nordeste. Tinha até uma bicicleta. Adorava passear no domingo. Só faltava uma mulher. Logo, logo arranjaria uma.<br />
A vida prosseguiu. Acordava por volta das 5h30m, ia trabalhar, descansava um pouco em casa, depois umas aulinhas (estava fazendo supletivo do segundo grau), um pouco de tv e dormir para o outro dia.<br />
E foi num sábado que fez amizade com o vizinho da esquerda. Viu um garoto e um homem empurrando uma Brasília e foi ajudar. O homem que empurrava era o vizinho de duas casas ao lado. O garoto que empurrava era o filho e o do carro era o dono da casa. No domingo já foi jogar futebol com os novos amigos. Depois foram a um botequim e entornaram umas cervejas.<br />
Dias depois Egídio ganhou um presente. A cadela do vizinho Mauro deu filhotes e o piauiense ganhou um cachorrinho. Um vira-latinha.<br />
Assim Egídio levava a vida.<br />
De noite começava a se preocupar. A rotina parecia ganhar formas nas paredes de sua casa. A arquitetura de seu lar estava ficando pesada. Olhava para os ângulos no teto, analisando cada sujeirinha. Nem as voltinhas de bicicleta aos domingos adquiria novos caminhos. Num daqueles domingos parou a bicicleta no mercado perto de casa e entrou em busca de algo prático para preparar no almoço. Egídio tinha a impressão de que aquelas prateleiras cheias estavam vazias. Nenhuma novidade em produtos. Catou uma lata aqui, um pote ali, pôs na cesta. Continuou olhando nas gôndolas até que seus olhos foram parar numa bunda. Algo bom parar comer, só não poderia comprar.<br />
Levantou os olhos, foi passando pelas curvas bonitas e quando chegou nos cabelos a moça voltou-se para Egídio e achou o homem também. Ela tentou transmitir algo pelo olhar e Egídio respondia com cara de &#8220;gostei-de-tu&#8221; mas os dois continuaram suas compras. Egídio sentiu algo enchendo de sangue dentro de seu calção e já não sabia mais o que comprar, foi para casa com aquela morena em suas cabeças.<br />
Quem sabe ela morasse ali? Passou a freqüentar mais aquelas bandas. Só comprava naquele mercado.<br />
Mas só a reencontrou. Duas semanas depois, num açougue. Ficou na fila olhando, tarado, para aquele corpo incrível com cara de &#8220;ai-se-te-pego&#8221;. Mais uma vez ela pareceu interessada por Egídio, muito mais do que antes.<br />
E num sábado ele fez uma grande descoberta: ela trabalhava numa loja ali na avenida. Ele sabia que ela estava sentindo a mesma coisa e foi direto a ela. Entrou na loja. Já sabia o que comprar, envelopes.<br />
- Oi. Eu queria uns envelopes.<br />
- Quantos?<br />
Os olhos dela estavam fixos nos de Egídio.<br />
- Me vê aí uns&#8230; dez.<br />
Ela virou para pegar e deixou à apreciação de Egídio aquelas nádegas. O homem não pôde conter um forte suspiro.<br />
- Que mais?<br />
- Deixe eu ver&#8230;<br />
Passeou pela loja.<br />
- Selos! - deu uma risadinha. - Como é que eu vou mandar cartas sem selos?<br />
- Quantos?<br />
Agora ela o pegara. Mas servia para prosseguir um papo.<br />
- É&#8230; Quantos selos será que precisa para mandar uma carta para o Piauí?<br />
- Acho que bastante. Você é de lá?<br />
A paquera estava consumada. Depois que a loja fechou ele voltou e foram tomar algo numa padaria ali perto. Conheceram-se e alegrados pelas cervejas a casa de Egídio os recebeu para uma boa trepada. Egídio era o novo namorado da moça chamada Cláudia, de Imperatriz do Maranhão, e Cláudia era sua primeira namorada em São Paulo.<br />
Agora sim ele estava feliz.<br />
Mas chegou o outono e ele se sentiu um pouco doente. Uma gripe. Foi ao médico, tomou uma injeção e no dia seguinte estava melhor.<br />
O bem-estar foi passageiro. À noite, voltou a febre. Pediu ajuda a uns comprimidos e dormiu. De manhã mais febre. Foi direto ao hospital. Mais uma injeção forte e repousou. Na hora do jantar sua namorada foi visitá-lo, soube de seu estado e passou a noite com ele.<br />
Foi o pior dia. Teve delírios, sonhava acordado. Achava que sua cama estava flutuando no ar. E o ar, pesadíssimo. Era como se estivesse dentro d´água.<br />
Chegou a manhã. Cláudia lhe preparou o café, que não conseguiu tomar direito, e foi trabalhar, prometendo voltar na hora do almoço.<br />
Nem quis saber de médico. Toda vez que ia, piorava. Achou melhor ficar em casa. Os vizinhos souberam de seu estado e começou a chover receitas de remédios. Mas Egídio estava saturado de receitas, afinal ele tinha nascido no Nordeste, região onde tudo é na base da cultura popular. Chamou um garoto na rua e pagou-o para comprar-lhe uma dúzia de limões. A base das receitas contra gripe.<br />
Em dois dias as injeções e os limões o reergueram. Mas estranhamente o ar de sua casa continuava pesado.<br />
Numa noite a rua não tinha energia. Silêncio e velas. Na hora de dormir, colocou uma vela num prato grande no quarto, tomando o cuidado para não ficar nada por perto que pudesse provocar um incêndio. Deitou na cama e ficou olhando a chama tremulante e hipnótica. A dança daquele foguinho prendeu a sua atenção por algum tempo e depois ele desviou o olhar para as sombras estranhas que a vela causava no quarto. Lembrou-se das notes de sua casa em Parnaíba, iluminadas por lamparinas e o medo das coisas que nunca via mas não deixava de temer.<br />
Antes mesmo de pegar no sono a luz voltou. Levantou e apagou a vela. Surpreendeu-se com uma leve sensação de alívio dentro do peito. Sentiu medo do escuro.<br />
Mas tratou de controlar-se. Só crianças têm medo do escuro&#8230;<br />
Na noite seguinte, acordou assustado com um estranho barulho. Acendeu a luz e seguiu o barulho. A porta da cozinha que dava aos fundos do quintal estava sendo arranhada. Lembrou&#8230; era seu cãozinho. Abriu a porta e viu o animalzinho acordado e irrequieto, querendo alguma coisa. Jogou um prato de comida para o cachorro e encheu o outro pote com leite. Claro que ele foi direto ao leite. Egídio não esperou para ver se o cãozinho comeria a comida e fechou a porta.<br />
Deitou na cama. Perdera completamente o sono. Ficou parado, com os olhos fechados, como se estivesse vendo o sono chegar e tomá-lo.<br />
Abriu os olhos e passou pelo quarto. Voltou a fechar. Sentiu que estava ficando pesado de sono. Botou o corpo para o outro lado. Sentiu a orelha gelar e cobriu um pouco mais sua cabeça.<br />
Abriu os olhos. Ficou deitado de costas. Olhava o teto. Colocou as mãos debaixo da cabeça. Tossiu. Virou para a esquerda, cobriu-se novamente e fechou os olhos.<br />
Levantou da cama e acendeu a luz. Pôs os chinelo, apagou a luz e foi à sala. Ligou a TV e achou um filme.<br />
Pela terceira vez, sentado no sofá defronte à TV, olhou atrás, para a escuridão. Havia algo com o escuro de sua casa ou com ele. Achou que era com ele. Depois suas dúvidas voltaram-se para o escuro.<br />
Amanheceu, foi trabalhar e pensou.<br />
- Ainda devo ter um pouco de febre.<br />
Talvez por isso ficava imaginando coisas à noite.<br />
Durante uma semana ficou preocupado com o escuro. Dormia com a luz do corredor acesa.<br />
- Devo estar ficando louco.<br />
Havia algo no escuro, ele tinha certeza. Era só apagar a luz e sentia aquela sombra se materializar. Era como o fundo de um olho.<br />
Foi à igreja. Católico.<br />
Por uns tempos ficou místico. Acendia velas, rezava, adquiria amuletos&#8230;<br />
Mas nada lhe tirava a idéia de que a escuridão de sua casa estava viva. Nem Cláudia, sua namorada, que era constantemente convidada a dormir com ele, convencia-o de que era uma cisma.<br />
O escuro o vigiava. O escuro o espreitava. E uma hora iria pegá-lo.<br />
- Sim! Uma hora ele vai me pegar!<br />
Sábado destes recebeu a visita de seu amigo Amaro. Conversaram, riram, chegou o jantar. E Egídio dava um jeito de segurar o amigo. Mas depois ele se foi. Tristeza. Era encarar o escuro novamente.<br />
O escuro chegou com a noite de um filme de terror. O vento às vezes uivava, as folhas das árvores caindo.<br />
E o cachorrinho ficou agitado com a chegada do temporal. Latia e arranhava a porta do fundo. Egídio abriu, ele entrou correndo e ficou pulando. Depois ganhou uma caixa de sapato.<br />
- Tomara que você cresça logo, Chiquito.<br />
Rezou, deitou&#8230; e dormiu.<br />
5h30m. O relógio tocou. Trrrrrrrrrrrimmmmmmmm&#8230;<br />
- Eu dormi! Obrigado, meu Deus, eu dormi! Quem tem sono, dorme!<br />
Sentou-se na cama e alcançou um chinelo. Mas quando se levantou&#8230; algo estranho tinha acontecido: onde estava seu cãozinho? Sumira também a caixa. O susto deu lugar à dúvida. Talvez o brincalhão tivesse aprontado alguma.<br />
Abriu a porta e viu a caixa. E viu também cocô. &#8220;Porcaria!&#8221;. Na direção do banheiro viu pelos no chão.A porta estava fechada.<br />
Colocou a mão na maçaneta. E se preparou para o que iria ver. Respirou fundo e girou-a: Clec.<br />
Foi empurrando devagarzinho&#8230; E um cheiro horrível foi chegando em seu nariz.<br />
- Que nojeira&#8230; que nojeira&#8230;<br />
A porta totalmente aberta: Egídio se afastava com o olhar fixo no chão e a boca aberta. Vomitou.<br />
No chão do banheiro o cachorrinho estava completamente estraçalhado, parecia ter sido mastigado e cuspido. Só sobrara inteiro (ou quase) o rabo e a cabeça, sem os olhos.<br />
No cérebro de Egídio só um pensamento: o escuro tinha feito sua primeira vítima.<br />
Ele faltou ao trabalho e limpou o banheiro. Jogou água no piso e foi arrumar suas coisas. Dormiu num hotel. No outro dia foi falar com o dono da casa e arrumou outra. Chamou um caminhão e enquanto esperava, desmontava seus móveis. Chegou sua namorada Cláudia.<br />
- Eu não consigo entender porque você quer sair daqui.<br />
- Já falei, essa casa aqui vai acabar me matando. Tem alguma coisa, sei lá.<br />
A casa de dia era muito diferente. O Sol entrando. Que pena que o Sol não entrava à noite.<br />
A porta da sala foi fechando sozinha.<br />
- É o vento.<br />
Foi até o fim.<br />
- Que vento?<br />
As batidas dos corações aumentaram. Egídio foi até a porta e não conseguiu abri-la.<br />
- Vamos sair daqui.<br />
Correram para o fundo. A outra porta também estava fechada.<br />
Tudo fechado. Janelas fechadas. Cláudia agarrou-se a Egídio e começou a chorar.<br />
- Calma, pelo menos está entrando o Sol.<br />
Não durou muito tempo. Como se a noite tivesse caído de repente às duas horas da tarde, tudo ficou na mais plena escuridão. As luzes não funcionavam.<br />
Um grito de mulher. Vidros estilhaçados.<br />
Egídio conseguiu pular fora da casa por uma janela lateral. Estava sem a perna esquerda. Foi pulando feito o saci, com o sangue vazando como uma cachoeira e saiu à rua diante dos olhares horrorizados do povo, caindo na calçada e implorando por socorro.<br />
Cláudia tinha morrido como o cachorrinho de Egídio. Os legistas disseram que ela morrera como se tivesse sido atacada por uns cinco tubarões, algo assim. E a perna de Egídio arrancada também por uma espécie de mordida.<br />
O fato chegou aos jornais e à TV. Meses depois a casa foi demolida.<br />
Egídio voltou ao local, seis meses depois e ficou parado diante do terreno já cheio de capim, apoiado nas muletas.<br />
Quando ia saindo, uma enorme garra preta irrompeu do matagal, agarrou Egídio e o puxou para baixo.<br />
Conseguiu ler a pichação que havia num muro frente a sua antiga casa: &#8220;A certeza do anoitecer nos desencoraja a caminhar durante o dia&#8221;.<br />
(1989)	 </p>
	<p>ESTRÉIA DA SELEÇÃO NA FAVELA DO PULGÃO<br />
Do livro “O Joelho Direito de Jesus”,<br />
De Rynaldo Papoy<br />
Favela do Pulgão, zona sul. 27°. Cara, isto não parece outono em São Paulo. Acho que o Sol passa a manhã esquentando a sujeita do asfalto e agora, à uma hora, não há quem aguente. Quando cheguei em casa, tomei um banho de uma hora. Meus manos ficaram na sala. Tomavam o café que minha mulher Luísa preparou. Os caras tomavam o café gargalhando. Era sempre assim. Falavam da cara dos seguranças do banco, da cara do gerente, dos caixas, dos clientes. O dinheiro, devidamente dividido em sete, ficará aqui em casa, num compartimento secreto no meu quarto, até de noite. Meus manos vêm e o levam. Já separamos também o dinheiro da comunidade, 25% da renda do assalto. Hoje deu R$ 126.000,00. E sobrou para cada um R$ 13.500,00. Meus companheiros dizem que eu deveria ganhar um pouco mais, porque eu estudo os bancos e planejo os assaltos. Mas não estou nisto por dinheiro É difícil explicar. Nem tento. Aqui na favela do Pulgão sou uma espécie de rei. Todos me adoram. Porque este dinheirinho mensal ajuda muita gente. Já roubei nove bancos. Seis como participante e três como líder. No primeiro assalto como mentor, conseguimos R$ 600.000,00. Sorte. Dinheiro fácil vicia. Até hoje só matei uma pessoa. Não foi em nenhum assalto.<br />
Hoje, 10 de junho, a seleção brasileira está estreando na Copa do Mundo. Contra a Escócia. Como sempre acontece, minha mulher, Luísa, não entende bulufas de futebol e fica me perguntando tudo o que acontece. Hoje as perguntas foram: “De quanto em quanto tempo acontece uma Copa? Quem escolhe os times? Quantos juizes tem no jogo? Onde é a Copa do Mundo? Todos os times jogam no mesmo campo? O que acontece se a bola vai na arquibancada? Quanto custa um ingresso para ver um jogo? Por que uns jogadores ficam sentados? Por que o juiz joga aquela moedinha para cima?” Não, não, não aguentaria passar o jogo inteiro, aliás, a Copa inteira ouvindo bilhões de perguntas estúpidas. Eu até poderia ter dito a ela que não me fizesse cacete de pergunta nenhuma durante os jogos, mas sabe como é&#8230; ando com um berro na cintura há anos e não tive a chance de atirar em alguém.<br />
Ele estava ao lado da tv. Um Smith .45 que comprei de um major do Exército. Aos três minutos do primeiro tempo, antes do gol de César Sampaio, encostei o cano na têmpora esquerda dela e atirei. Acho que a bala se alojou no fundo do crânio. Quase gritei gol. Antes do segundo tempo vou limpar o fio de sangue que cobre um canto da tv de 34 polegadas. Mas não é de alta definição.<br />
KROBE</p>
	<p>I</p>
	<p>Dalbrus Pernek era o maior caçador de nazistas tcheco.<br />
Toda sua família havia sido morta em campos de concentração tchecos ou em Auschwitz, na Polônia e ele sobreviveu escondendo-se em esgotos e florestas.<br />
Quando a Segunda Guerra Mundial acabou, em 1945, estava com doze anos.<br />
Jurou que encontraria todos os oficiais foragidos dos campos de concentração de seu país.<br />
Cumpriu sua promessa até 1957, quando no mural de seu escritório em Praga, sobrou apenas uma foto: a do Sargento Wilhelm Krobe.<br />
Nascido em Munique, Krobe foi transferido para a ex-República Tcheca, anexada por Adolf Hitler, após ser ferido em combate na França. E essa era a única pista: manco da perna direita, caminhava apoiado numa bengala. Em 1945, estava com 25 anos. Não era dos nazistas mais violentos. Mas o que se sabia a seu respeito era que havia mandado matar ou ele mesmo fora o agente da morte de Benjamim Zalinski, pai de sua própria amante [ou escrava sexual] judia, Rachel Zalinski.<br />
Krobe manteve Rachel como amante por dois anos. Ele a conheceu com catorze anos e até seus dezesseis, ela usou os serviços sexuais prestados ao nazista para obter comida e remédios a sua família. Não se sabia o porquê de Krobe decidir matar o pai dela. Era um fato nebuloso.<br />
Com os tios [porque sua mãe morrera de tifo, como muitos prisioneiros, já que a tetraciclina mal havia sido inventada], Rachel foi morar no Brasil, em São Paulo. Lá, sua família montou um armarinho, no bairro do Bom Retiro. Não se casou. Não teve namorado. Enojava-se com a idéia de estar junto com um homem.<br />
Será que Krobe procuraria Rachel um dia? Ela e seus tios já estavam avisados.  Pernek viajou ao Brasil e entregou uma foto de Krobe ao tio de Rachel, Abraham Zalinski. Se tivesse a mínima suspeita da presença de Krobe, deveriam entrar imediatamente em contato com Praga ou Tel Aviv. Os israelenses tinham uma corda esperando por Wilhelm Krobe.</p>
	<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8211;<br />
Mas o telefonema que Pernek recebeu do Brasil não era dos Zalinski. Era o telefonema de um engenheiro judeu alemão que morava em Joinville, colônia alemã no sul do país.<br />
Klauss Spielmann, 60 anos, sobrevivente de Auschwitz, colecionava livros, revistas e jornais sobre o Holocausto. Tinha numa pasta as fotos de nazistas não encontrados e sabia que muitos deles poderiam ter vindo para o Brasil, incluindo o pior deles, o sádico médico de Auschwitz Joseph Mengele. Joinville era a maior cidade de Santa Catarina, essencialmente constituída por descendentes de imigrantes alemães, apesar do nome francês. Não seria difícil imaginar que foragidos nazistas poderiam facialmente se misturar à população local. Spielmann era funcionário do governo do Estado.<br />
- Senhor Pernek?<br />
- Pronto.<br />
- Estou falando de Joinville, no Brasil. Foi difícil falar com o senhor.<br />
- Posso ajudá-lo?<br />
- Soube que está procurando o Sargento Krobe. Eu acho que ele era meu vizinho.</p>
	<p>No dia seguinte, Perneck e sua equipe chegaram à cidade.<br />
A descrição dos vizinhos conferia. Casado, dois filhos. Vivia recluso. Não tinha amigos. Era mecânico. Foi embora de Joinville após perceber que seu novo vizinho judeu o havia reconhecido.<br />
Perneck vasculhou a casa de Krobe mas não achou nenhuma pista. O caçador de nazistas estava feliz e entusiasmado. Era 1960. Sua busca teria um fim em breve.<br />
Para onde Krobe teria ido? Teria mudado de cidade? De Estado? De país? Uma grande coincidência: Krobe e Rachel emigraram para o mesmo lugar: o Brasil. Seus tios foram os primeiros a ser avisados. Rachel adoeceu.<br />
Deitado na cama de seu quarto, num hotel em Joinville, Pernek pensava: Krobe estaria com 40 anos. Onde havia aprendido a consertar automóveis? Quem seria sua esposa? Como seria o relacionamento com os filhos? Eles saberiam que o pai era um criminoso nazista? Pernek soube em Joinville que Krobe usava outro nome: Georg Shroeder. Mudaria outra vez de nome?<br />
Mais um ano se passou e não foi encontrada nenhuma outra pista de Krobe.<br />
Tudo o que Pernek não queria aconteceu: a imprensa brasileira descobriu o caso. Jornais e revistas publicaram as fotos e os perfis de Krobe, Rachel Zalinski e Pernek. Agora o nazista saberia que um eficiente caçador estava a sua espreita e desapareceria para sempre.<br />
Uma semana depois, Pernek leu, num jornal de Florianópolis, sobre a morte cruel de um deficiente que morava numa praia distante na capital de Santa Catarina. Era um rapaz afro-descendente que não tinha os braços nem as pernas e segundo testemunhas, gostava de provocar um alemão que quase o havia atropelado. O alemão o havia xingado e desde então, toda vez que se encontravam, o deficiente o xingava de “alemão nojento”, entre outros nomes.<br />
Sua casa foi incendiada com o rapaz amarrado na cama.<br />
Imediatamente, Pernek foi à tal praia, mas a descrição era diferente. O alemão, embora tivesse dois filhos, não mancava e tinha os cabelos negros e criava porcos. Porém, após as reportagens e o assassinato, também havia desaparecido.<br />
Krobe estava muito próximo de Pernek, mas havia escapado, o que deixava o tcheco revoltado. Pernek estava certo que era ele. Havia aprendido a andar sem bengala e pintava os cabelos, óbvio.<br />
Duas semanas depois, novo telefonema, também em alemão.<br />
- Senhor Baldrus Pernek? Tenho motivos para acreditar que Wilhem Krobe está em Sidney, na Austrália.<br />
Foi dada uma minuciosa descrição de Krobe.<br />
- Quem está falando? – perguntou Pernek.<br />
- Não quero me envolver. Sou um marinheiro e vi Krobe em Sidney.<br />
- Qual o seu interesse?<br />
- Sou judeu.<br />
- Judeu alemão?<br />
- Sim.<br />
- Qual o seu nome?<br />
- Já disse: não quero me envolver. Pegue Krobe, Pernek. Por favor.<br />
No dia seguinte, o caçador de nazistas viajou para Sidney.</p>
	<p>1964.<br />
Um cartão e um buquê de flores deslocaram um exército para São Paulo.<br />
Rachel Zalinski havia recebido um cartão, escrito em alemão: “Se ainda me ama, coloque essas flores na janela”.<br />
Sua casa, no dia seguinte, foi invadida por agentes israelenses. O nome da agência israelense de espionagem e contra-terrorismo era Mossad, cujo nome significava “Instituto para Inteligência e Operações Especiais”. Em 1960, eles haviam seqüestrado na Argentina e levado secretamente para Israel o criminoso nazista Adolf Eichmann, onde foi enforcado.<br />
- Marque um encontro com Krobe, Rachel. Vamos prendê-lo.<br />
Rachel colocou as flores na janela da loja.<br />
No dia seguinte, novo cartão, entregue por um mensageiro.<br />
“Encontre-me no Parque da Luz, amanhã, às 9 horas. Por favor, não leve os agentes israelenses que foram a sua casa, ontem”.<br />
- Vamos observá-lo de longe. Prenderemos Krobe quando ele sair do parque.<br />
Desde as seis da manhã, 150 agentes estavam nas imediações do Parque da Luz. Era domingo. O próprio parque ficaria lotado.<br />
Muito nervosa, Rachel começou a andar pelo parque, às 9h10m. Saiu de sua casa às 9h, caminhou pela Rua José Paulino [nome em homenagem a um dos mais importantes empresários republicanos paulistas do século 19] e chegou ao Parque, dez minutos depois.<br />
Às 9h15m, ela recebeu um bilhete de um garoto.<br />
“Você me traiu. Há mais de cem agentes disfarçados por aqui. Você não me ama. Era tudo o eu queria saber”.<br />
Os israelenses vasculharam toda a região e não encontraram vestígios de Krobe. Baldrus Pernek sentiu-se desafiado. “É muito astuto este nazista. Vamos ver quem é mais, ele ou eu”, pensou.</p>
	<p>No dia 07 de novembro de 1965, Wilhem foi preso na frente da casa de Rachel. Ela sabia que ele voltaria. Quando o viu com um carrinho de sorvete, na frente de sua casa, foi até lá.<br />
- Quero um sorvete de morango.<br />
Enquanto ele a servia, ouviu a pergunta:<br />
- Eu sempre quis saber: você matou meu pai?<br />
- Desculpe-me?<br />
- Eu sei quem você é, Sargento Krobe. Você matou meu pai?<br />
Ele levantou a cabeça. Após vinte anos, os olhos azuis de Krobe encontraram os olhos azuis de Rachel.<br />
- Espero que não. Eu jamais feriria alguém de sua família. Se matei seu pai, foi por engano ou acidente. Mas, sinceramente, não me lembro.<br />
Nesse momento, quatro automóveis cercaram o carrinho de sorvete e doze homens agarraram Krobe.<br />
- Wilhem Krobe? Você é o Sargento Wilhem Krobe?<br />
Os transeuntes espantaram-se com aquelas pessoas gritando em alemão. Pessoas saíram às janelas de suas casas e portas de lojas.<br />
Krobe permaneceu em silêncio. Decidiram colocá-lo num dos carros, mas Krobe ainda teve tempo de dizer:<br />
- Eu amava você, Rachel. Eu queria dizer isto olhando nos seus olhos.<br />
Krobe resistia a entrar no carro, pois ainda queria dizer:<br />
- E você, Rachel? Você me amava também ou estava apenas se prostituindo?<br />
Rachel nada falou. Só o observou sendo levado.<br />
De dentro do carro, olhando para trás, Krobe gritava:<br />
- Responda, Rachel! Responda, Rachel!<br />
Os tios de Rachel correram para abraçá-la. O carro dobrou a esquina e desapareceu.<br />
Rachel Zalinski não tinha como responder. Ela não sabia a resposta.<br />
Porém, agora sentia-se livre.</p>
	<p>II</p>
	<p>O campo de concentração onde Krobe estava lotado seria invadido em questão de horas. A cidade estava sitiada pelos soviéticos. Krobe não queria morrer nem ser preso. Simplesmente vestiu roupas civis, encheu os bolsos de ouro e jóias roubados dos prisioneiros e saiu caminhando pelo campo.<br />
Seu último ato, antes de partir, foi despedir-se de Rachel.<br />
Ela estava deitada na cama dele, em seu apartamento. Krobe abaixou-se e beijou sua testa.<br />
Ele não imaginava o quanto sentiria falta dela e o quanto gostaria de dizer a ela que não havia assassinado seu pai. O problema é que não tinha certeza do fato.<br />
Até chegar a Munique, Krobe não viu grandes dificuldades. Era auxiliado pela própria população, a quem oferecia ouro e jóias.<br />
Sua avó sugeriu que ele fugisse para a América do Sul. Os governantes estavam protegendo os criminosos nazistas, em troca de dinheiro.<br />
Krobe pegou um trem e foi para o porto de Roterdã, na Holanda. Lá, embarcou num navio brasileiro, onde também deixou ouro e jóias.<br />
Tudo isso já havia sido organizado por Himmler, em 1944, ao criar uma rota de fuga para os nazistas, dando origem a uma organização secreta chamada Odessa [Organização dos Membros da SS, em alemão], cuja sede era na Argentina.<br />
Krobe sabia que nunca mais voltaria à Europa.<br />
Quando chegou ao porto de Santos, disse seu novo nome, inventado no navio: Georg Schroeder. No lugar de documentos, entregou 100 gramas de ouro ao agente da alfândega, que também trabalhava para a Odessa. Trabalho que lhe deixou rico.<br />
Krobe hospedou-se numa pensão indicada pelo aduaneiro.<br />
Pela manhã, recebeu a visita de outro alemão.<br />
- Tenho como lhe dar outra identidade. Tenho amigos no governo brasileiro.<br />
E assim, Krobe tornou-se, oficialmente, Georg Schroeder.<br />
- Preciso de um emprego também. – pediu Krobe ao alemão.<br />
O ex-sargento nazista chegou na cidade de São Paulo e foi ao endereço indicado, próximo da Estação da Luz. Uma simples oficina mecânica. O dono da oficina era um italiano, que não lhe fez perguntas.<br />
Em um ano, Krobe havia se tornado expert em mecânica de automóveis. Mas não conseguia se acostumar ao convívio de italianos e negros. Sem falar que o Brasil era uma das maiores colônias judaicas do mundo. Já no navio de Pedro Álvares Cabral veio um judeu, Gaspar da Gama. Depois, outros judeus fugiram das perseguições na Espanha e Portugal. Em 1810, mais judeus chegaram ao Rio de Janeiro. Depois, judeus marroquinos foram para a Amazônia.<br />
Com o fim da segunda guerra mundial, o Brasil passou a receber judeus do leste europeu [asquenazin, como os Zalinski] e também os sefaradin, da Espanha.<br />
O bairro do Bom Retiro, nas imediações da oficina do italiano, tinha milhares de judeus asquenazin, que haviam ocupado o bairro no início do século 20 e que agora estavam recebendo exilados do mesmo grupo. Mais cedo ou mais tarde, algum judeu acabaria lhe reconhecendo, pois fotografias de foragidos nazistas estavam sendo espalhadas pelo mundo e disseminadas entre comunidades judaicas, como a grande comunidade paulistana.<br />
Krobe soube então de um Estado ao sul do Brasil  onde a presença de imigrantes alemã
</p>
]]></content:encoded>
				</item>
	<item>
		<title>by: Anny</title>
		<link>http://oroboro.blogsome.com/2006/11/25/libra-linguas-mortas/#comment-16</link>
		<pubDate>Tue, 06 Oct 2009 16:23:00 +0100</pubDate>
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					<description>mto bom </description>
		<content:encoded><![CDATA[	<p>mto bom
</p>
]]></content:encoded>
				</item>
	<item>
		<title>by: Mariana Mota</title>
		<link>http://oroboro.blogsome.com/2006/07/11/p23/#comment-15</link>
		<pubDate>Mon, 03 Nov 2008 00:28:37 +0000</pubDate>
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					<description>O profeta Maomé</description>
		<content:encoded><![CDATA[	<p>O profeta Maomé
</p>
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				</item>
	<item>
		<title>by: Administrator</title>
		<link>http://oroboro.blogsome.com/2006/11/25/libra-linguas-mortas/#comment-14</link>
		<pubDate>Wed, 06 Dec 2006 16:04:23 +0000</pubDate>
		<guid>http://oroboro.blogsome.com/2006/11/25/libra-linguas-mortas/#comment-14</guid>
					<description>Hehehe... bom, em meu post de despedida, eu disse que não escreveria mais, COM exceção de LIBRA. Mas pode ser que eu até esteja reconsiderando sim. Ou não. Mais esclarecimentos acima.

:-)</description>
		<content:encoded><![CDATA[	<p>Hehehe&#8230; bom, em meu post de despedida, eu disse que não escreveria mais, COM exceção de LIBRA. Mas pode ser que eu até esteja reconsiderando sim. Ou não. Mais esclarecimentos acima.</p>
	<p>:-)
</p>
]]></content:encoded>
				</item>
	<item>
		<title>by: Pablo Casado</title>
		<link>http://oroboro.blogsome.com/2006/11/25/libra-linguas-mortas/#comment-13</link>
		<pubDate>Tue, 05 Dec 2006 17:11:19 +0000</pubDate>
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					<description>Opa, legal as páginas. Alguém voltou a trás, hein? =)

E dá uma olhada nisso:

http://pablocasado.blogsome.com/2006/12/05/evangelion-is-life/</description>
		<content:encoded><![CDATA[	<p>Opa, legal as páginas. Alguém voltou a trás, hein? =)</p>
	<p>E dá uma olhada nisso:</p>
	<p><a href='http://pablocasado.blogsome.com/2006/12/05/evangelion-is-life/' rel='nofollow'>http://pablocasado.blogsome.com/2006/12/05/evangelion-is-life/</a>
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				</item>
	<item>
		<title>by: André Caliman</title>
		<link>http://oroboro.blogsome.com/2006/10/20/quadrinhopole/#comment-12</link>
		<pubDate>Thu, 26 Oct 2006 03:01:56 +0100</pubDate>
		<guid>http://oroboro.blogsome.com/2006/10/20/quadrinhopole/#comment-12</guid>
					<description>Valeu pelo elogio e pelos comentários!</description>
		<content:encoded><![CDATA[	<p>Valeu pelo elogio e pelos comentários!
</p>
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				</item>
	<item>
		<title>by: Massula</title>
		<link>http://oroboro.blogsome.com/2006/09/15/wasteland-1-na-faixa/#comment-11</link>
		<pubDate>Mon, 25 Sep 2006 18:59:10 +0100</pubDate>
		<guid>http://oroboro.blogsome.com/2006/09/15/wasteland-1-na-faixa/#comment-11</guid>
					<description>Ainda nao, cara. Mas to viajando e deixei pra dar uma olhada nesse assunto quando tiver mais sossegado. Ainda assim, fico na expectativa.</description>
		<content:encoded><![CDATA[	<p>Ainda nao, cara. Mas to viajando e deixei pra dar uma olhada nesse assunto quando tiver mais sossegado. Ainda assim, fico na expectativa.
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	<item>
		<title>by: Pablo Casado</title>
		<link>http://oroboro.blogsome.com/2006/09/15/wasteland-1-na-faixa/#comment-10</link>
		<pubDate>Mon, 25 Sep 2006 14:08:07 +0100</pubDate>
		<guid>http://oroboro.blogsome.com/2006/09/15/wasteland-1-na-faixa/#comment-10</guid>
					<description>Cara, eu preciso reler o Phonogram: tava meio de birra no dia e minha leitura foi uma merda.

E Wasteland é bem mais ou menos, viu? Narrativa bacana, mas os diálogos estragaram boa parte da coisa.

E o The End of Eva? Conseguiu?</description>
		<content:encoded><![CDATA[	<p>Cara, eu preciso reler o Phonogram: tava meio de birra no dia e minha leitura foi uma merda.</p>
	<p>E Wasteland é bem mais ou menos, viu? Narrativa bacana, mas os diálogos estragaram boa parte da coisa.</p>
	<p>E o The End of Eva? Conseguiu?
</p>
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				</item>
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		<title>by: Administrator</title>
		<link>http://oroboro.blogsome.com/2006/04/30/quadrinhos/#comment-9</link>
		<pubDate>Thu, 25 May 2006 21:02:59 +0100</pubDate>
		<guid>http://oroboro.blogsome.com/2006/04/30/quadrinhos/#comment-9</guid>
					<description>:-))))). 

Querê, nós queria, mas enfrentar alguém que já esgotou a tiragem na pré-venda (Gaiman) não é bolinho não!

Mas, quem sabe ano que vem?</description>
		<content:encoded><![CDATA[	<p>:-))))). </p>
	<p>Querê, nós queria, mas enfrentar alguém que já esgotou a tiragem na pré-venda (Gaiman) não é bolinho não!</p>
	<p>Mas, quem sabe ano que vem?
</p>
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		<title>by: Octavio</title>
		<link>http://oroboro.blogsome.com/2006/04/30/quadrinhos/#comment-8</link>
		<pubDate>Thu, 25 May 2006 19:40:16 +0100</pubDate>
		<guid>http://oroboro.blogsome.com/2006/04/30/quadrinhos/#comment-8</guid>
					<description>Que mané perder pro Dylan Dog o quê, rapá! Tem que GANHAR o HQMIX, sim sinhô!</description>
		<content:encoded><![CDATA[	<p>Que mané perder pro Dylan Dog o quê, rapá! Tem que GANHAR o HQMIX, sim sinhô!
</p>
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