OROBORO

October 20, 2006

QUADRINHÓPOLE

Filed under: Resenhas, Notícias

Capa da edição 1, por José Aguiar

Hoje rola o lançamento oficial, mas ontem já tinha posto minhas mãos na primeira edição da revista revista independente QUADRINHÓPOLE.

A primeira edição traz 4 hqs, UNDEADMAN, INVISÍVEIS, SEQUESTRO RELÂMPAGO e CAMPO DE FEIJÃOTRAÇÃO, sendo que a primeira é o único título fixo na revista.

UNDEADMAN – 6 páginas

Roteiro de Leonardo Melo. Arte de André Caliman.

A verdade é que nunca fui chegado em aventuras do tipo capa-espada (existem as exceções, obviamente), contudo, como o Leonardo promete no editorial da revista, as histórias de Jason de Ely, o cavaleiro imortal que dá nome ao título, não se resumirão a um período histórico somente, o que já torna a coisa mais interessante aos meus olhos. Essa hq é só uma introdução ao personagem e seu universo. Aguardemos mais. O destaque da hq fica para a arte de André Caliman, a melhor da edição, IMHO.

INVISÍVEIS – 8 páginas

Roteiro de Pablo Casado. Arte de Thiago Oliveira. Tons de cinza por Renato Moraes.

O título já reverbera as influências Morrisonianas de Pablo, que vão história adentro, numa mistureba legal de conceitos (são quadrinhos, ora!) que me são muito caros. Para mim, foi a melhor hq desta edição. A Sci-Magic é legal e eu queria ver isso de novo.

SEQUESTRO RELÂMPAGO – 8 páginas

Roteiro de Leonardo Melo. Arte de Joelson Souza. Arte final de André Caliman.

Embora o roteiro precise de algumas revisões (o termo “minha cabeça” aparece três vezes seguidas onde poderia ter sido facilmente substituído) e o twist do final me tenha soado um pouco forçado, depois de Invisíveis, foi a hq que mais me agradou, pela escolha de se contar a história sob o ponto de vista da vítima do tal sequestro, literalmente. Os autores souberam explorar isso e criaram um efeito bem interessante.

CAMPO DE FEIJÃOTRAÇÃO – 4 páginas

Roteiro de Leonardo Melo. Arte de Anderson Xavier.

Não sei porque, mas ainda continuo achando que humor puro e simples não casa bem com histórias de outros gêneros, e justamente por isso tenho a impressão que esta hq ficou deslocada na edição, e foi a que menos gostei.

Além disso, na terceira capa, há duas tiras de Chico Félix, que funcionam, mas também me dão a impressão de estarem deslocadas na revista.

Quanto à parte gráfica, o pessoal da QUADRINHÓPOLE está de parabéns. 32 páginas em papel couchê, preço bom (3 mangos), e capa fodida de José Aguiar. Que venham mais.

Lançamento (corre que ainda dá tempo):

20 de Outubro (HOJE!!!!)

A partir das 19:00h, no Memorial do Largo da Ordem, em Curitiba - PR

October 12, 2006

ABBEYARD, DE SCOTLAND YARD

Capa - ridiculamente reduzida - de Abbeyard

(só consegui essa imagem mesmo, rapêize)

Sempre pensei que, depois de FROM HELL, qualquer hq que tentasse desconstruir o mito de Jack, o Estripador, estaria fadada a entrar pelo cano.

ABBEYARD DE SCOTLAND YARD, com roteiros de Viviana Centol e desenhos de Carlos Vogt, publicada originalmente na Itália em treze capítulos e agora lançada na Argentina num único catatau de 168 páginas, felizmente conseguiu me provar que estava errado. E o ingrediente que, além de responsável por essa minha mudança de opinião, ainda consegue manter a hq a quilômetros da obra do Makonheiro Mágicko de Northampton é um velho conhecido nosso: o humor. Negro.

Sente o drama (trecho extraído da introdução escrita por Carlos Vogt, pitorescamente traduzido por mim):

“Muito tempo depois, numa mostra de quadrinhos em Buenos Aires, ao passar entre um grupinho e outro, cumprimentando roteiristas e desenhistas, me encontrei com aquela amiga de minha prima Anelli. ‘Eu te conheço’, lhe disse, sem me recordar de seu nome, obviamente. Nos sentamos com um pessoal para tomar um café. Da conversa surgiu o assunto de que ela estava burilando uma história policial que se passava em Londres, no final do séc. 19. ‘Vai ser uma hq com muito sangue, putas e fantasmas. Os ingleses adoram fantasmas!’, assegurou, empolgada. ‘Eu não’, respondi, sério. ‘Me dão medo.’Viviana Centol olhou para mim, incrédula. ‘Mas…vai ser uma comédia’, achou melhor esclarecer. Acendi um cigarro, com a mão tremendo, e suspirei: ‘Ah. Menos mal.’”

Archibald Abbeyard – que tem sempre o sobrenome confundido com Abellard – é um arquivista da Scotland Yard, sem muitas perpectivas profissionais, que acaba se envolvendo com o caso de Jack, o Estripador, quando Belle, uma prostituta com quem mantinha uma… hã… bela amizade, acaba sendo morta pelo assassino de Whitechapel.

A diferença é que Belle, ao invés de ser extripada como as demais, é arremessada pela janela, o faz com que a polícia acabe descartando qualquer relação deste crime com os demais, preferindo acreditar na hipótese de suicídio. E a história terminaria assim, se o fantasma de Belle não voltasse para azucrinar Abbeyard até que ele concordasse em tentar descobrir a identidade de Jack (e seus motivos), para que ela pudesse descansar em paz.

O humor, pastelão, mas não excessivo, é bem dosado e Viviana constrói uma história bacana, com direito a identidade do assassino revelada (mas só no final). Final este, inclusive, que foge às convenções e também constitui um caso à parte.

Já o traço de Vogt - bem caretão (ou clássico), mas muito bonito - cai como uma luva nessa história vitoriana. Ele capricha nas expressões faciais e não poupa Abbeyard de ser retratado como o paspalho de bom coração que realmente é.
ABELLARD foi publicado pela Thalos Editorial e está saindo por 19,90$ (pesos argentinos).

September 14, 2006

CASANOVA

Filed under: Resenhas

Li os dois primeiros números de CASANOVA, título criado por Matt Fraction (roteiros) e pelo brasileiro Gabriel Bá (desenhos). Achei um barato!

As aventuras do super-espião Casanova Quinn, agente da E.M.P.I.R.E., uma super-polícia mundial levam o conceito de espionagem à enésima potência e é possível encontrar referências a tudo quanto é tipo de aventura do gênero que se possa imaginar (James Bond, o Nick Fury de Steranko, etc.).

CASANOVA vai na mesma direção de outro título publicado pela Image, FELL, ou seja, a proposta é apresentar singles, histórias fechadas em 16 páginas de quadrinhos (mais quatro com material extra), com um preço ligeiramente menor, se comparado aos demais comics americanos. Proposta muito feliz na minha opinião, se querem saber.

Casanova 1

Na primeira edição, somos apresentados ao mundo de Casanova, com direito a todos os seus elementos bizarros (e legais!): uma super-agência de espionagem, um super-grupo terrorista, consciências enclausuradas em corpos robóticos, um gângster telepata de três cabeças chamado Fabula Berserko, um helicassino, viagens dimensionais e por aí vai.

Essa edição tem mais páginas de quadrinho (28) e uma pequena apresentação de Matt Fraction na terceira capa.

Casanova 2

Já na segunda edição, a missão do agente Quinn é resgatar um agente infiltrado na nação sul-americana de Água Pesada. Isso mesmo. Água Pesada, em português. Um lugar onde um gerador de orgone, que está ligado há quatro anos mantém o país em estado de carnaval perpétuo.

Um detalhe interessante é que o agente infiltrado Winston Heath (aquele que deve ser salvo por Casanova), em seus anos de missão, começou a escrever um gibi chamado Minhas Confissões (sim, em português também), uma brincadeira óbvia com “Confessions of a Dangerous Mind”, autobiografia de Chuck Barris que gerou o bacanérrimo filme de George Clooney.

O que eu curti mesmo nesse gibi é que ele não se leva a sério, no sentido dos autores se entregarem ao absurdo de braços abertos. Não é somente uma revista de agentes secretos fodidos pra caralho detonando qualquer um que lhes cruze o caminho. Claro, esses elementos estão lá, mas os personagens não se fazem de rogados quando têm que dar suas piscadelas ao leitor, sacam? Esse é um recurso que normalmente fica chato se utilizado muitas vezes, mas aqui coube como uma luva.

Não acho improvável que este título seja publicado no Brasil, visto que outras coisas que os gêmeos publicaram nos states por editoras menores e menos conhecidas já deram as caras por aqui, mas preferi não esperar. E não me arrependi.

Matt Fraction mantém uma newletter que publica esporadicamente e que pode ser assinada pelo email casanovaquinn(arroba)gmail.com. Da última vez, a frase que tinha que estar no assunto da mensagem era “I WAITED FOUR MONTHS FOR *THIS??!”. De vez em quando ele manda umas coisas legais.

September 2, 2006

BLACKSAD - 1

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Capa de BLACKSAD número 1

A revista data de julho, mas só consegui colocar minhas mãos numa edição agora.

BLACKSAD é sui generis. Se, por um lado, o roteirista Juan Díaz Canales preferiu seguir a cartilha do noir, sem tirar nem por, por outro, é a arte de Juanjo Guarnido que arrebata.

Traço esperto, cores belíssimas, e, claro, uma habilidade ímpar para lidar com a escolha de se utilizar animais antropomorfizados (ou humanos animalizados, como queira), que, se não é novidade, também não é corriqueira.

Uma das poucas revistas que me fisgaram muito mais pela arte do que pelo texto.

E não se espante com os 13,90 da capa. São um bom investimento. Ainda mais se tratando de uma revista bimestral.

Acompanharei.

Se você quiser arriscar, tá aqui o site oficial, em francês.

EM TEMPO:

Já tinha visto isso antes, mas dando uma passada lá no flog do Brandino vi o link novamente, que tinha me fugido à cabeça. É o hotsite do terceiro álbum. Também em francês. Bonito.

August 4, 2006

XIII - 1

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XIII - Número 1

Fiquei meio cabreiro e diria, até, incrédulo quando a Panini anunciou que ia começar a publicar quadrinhos de procedência franco-belga.

Incrédulo por este tipo de material estar, já há alguns anos, sempre na periferia do que é publicado por aqui. Mas quando vi que a coisa era séria fiquei feliz, confesso. Feliz porque é um ponto a mais para a diversidade, e, sei lá quem disse, “a diversidade é o tempero da vida”. Além disso, é uma das grandes a investir nisso, o que reduz fatalmente as possibilidades de uma linha editorial abortada.

XIII - com roteiros de Jean Van Hamme e desenhos de W. Vance - é um quadrinho de ação, fartamente inspirado no livro (que anos depois viraria filme) A IDENTIDADE BOURNE. Sempre fico impressionado com a capacidade dos europeus em assimilarem e regurgitarem referências sem cair no pastiche. Estão aí os fumetti que não me deixam mentir. Mas, voltemos ao que interessa.

A hq (ou bd) começa quando um velho encontra um homem desacordado e muito ferido. Quando ele desperta, está totalmente desmemoriado e a única pista que tem sobre seu passado é um algarismo romano (o XIII) tatuado próximo ao pescoço. Ele é acolhido pelo casal que o resgatou e leva uma vida quase bucólica, até que um grupo armado invade sua casa e ele “descobre” que possui habilidades de combate muito acima da média. Daí em diante, pancadaria, tiroteios e intrigas pra ninguém botar defeito.

Um ponto interessante a se ressaltar é o modo como são feitas as hqs franco-belgas, totalmente diverso dos comics americanos, ao qual o leitor brasileiro está mais habituado. O formato padrão desses quadrinhos é o que se convencionou chamar de álbum, contendo, na grande maioria das vezes 48 páginas de quadrinhos e sendo lançado anualmente. Outro ponto interessante a se ressaltar é que as séries são finitas. Duram anos, mas sempre chegam ao fim. E o último álbum de XIII, o 18°, será lançado esse ano na França, encerrando a série. As edições de XIII que a Panini vem publicando contém 2 álbuns, então a publicação brasileira irá até o número 9. Pelo menos para mim, isso torna bem menos onerosos os 22 mangos que paguei pelo álbum. E há de se ressaltar a qualidade, claro.

Embora o proto-roteirista dentro de mim (piadas sem graça, serão punidas com força desproporcional, belê?) tenha chiado em dois ou três pontos ao longo das histórias, não há como negar que Hamme e Vance trabalham em plena sinergia. A história funciona. E bem. Fiquei curioso pra saber o que vem a seguir, que nos meus termos significa que o trabalho foi muito mais estimulante do que a maioria do material que tenho lido ultimamente.

E tô louquito pra ter em mãos BLUEBERRY e BLACKSAD.

P.S.: Só falta a Panini começar a publicar material nacional agora, né?.

P.P.S.: Desculpem. Não resisti.

July 28, 2006

UN TAL DANERI

Capa de UN TAL DANERI

Impressa num formatão pra lá de grande, em p&b com uns tons de cinza que achei cabulosos (e que até agora não sei se foram retículas bem vanguardistas para a época, ou se foi o bom e velho Photoshop), UN TAL DANERI, primeira colaboração entre o roteirista Carlos Trillo e a lenda argentina Alberto Breccia, “El Viejo”, já começa desconcertante por toda a expectativa que provoca.

São 8 histórias curtas, variando de 4 a 8 páginas, que contam a história de do tal Daneri (acharam que eu ia deixar passar essa, hein?), um gângster portenho que parece ser muito mais do que aparenta. Daneri, anagrama para Dante Alighieri, tem um faro especial para se meter em enrascadas e tragédias dignas de letra de tango. E os autores não negam que Borges foi a principal influência na hora de compor o personagem. Aí, já viu, né?

Das seis hqs, duas em especial (NÉLIDA e OJO POR OJO) são do tipo tapa no ouvido. Mas, apesar de eu ser fanzaço do Trillo, tenho que admitir que quem conduz tudo é mesmo Breccia. O palco principal é Mataderos, bairro de Buenos Aires muito caro a Breccia, e as histórias se passam numa época indeterminada.

O personagem só tem essas histórias, publicadas aos pouco, originalmente entre 1974 e 1978, em diversas revistas, argentinas e italianas, e esse álbum é a primeira reunião de todo o material no mesmo lugar. Segundo os autores, só não houve continuidade porque ninguém se interessou em continuar publicando. Mas todas as histórias são autocontidas.

A edição conta ainda com uma matéria introdutória e alguns esboços. Vale a pena.

O único senão fica pela curiosidade de saber até onde os dois autores teriam levado o personagem, caso tivessem seguido com ela.

P.S.: A série HISTÓRIETAS ARGENTINAS vai continuar assim agora, aos poucos, a medida em que eu for lendo o material. Decidi que fluirá melhor dessa maneira.

LE DÉCALOGUE

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CAPA DO PRIMEIRO ÁLBUM - LE MANUSCRIT

O texto abaixo é o comentário do camarada Pedro “Hunter” Bouça, mantenedor da lista de discussão EuroQuadrinhos (de onde foi extraído o texto, com a devida permissão) e também tradutor de XIII, do primeiro volume de ALDEBARAN, do vindouro BLUEBERRY e de otras cositas más.

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Há uma característica no quadrinho franco-belga que
perdura até os dias de hoje: O artista é a parte mais importante da
equipe criativa. Não há Goscinny, Charlier ou Jodorowsky que mude
essa tendência, cada série tem um artista fixo que dedica um ano de
sua vida (em média) desenhando (e às vezes também escrevendo,
colorindo e/ou letreirando) um álbum. Como substituições de
artistas são muito raras (até porque os personagens geralmente
PERTENCEM a seus criadores!), a identidade visual de uma série é
bem distintiva. Só se consegue imaginar o Lucky Luke desenhado pelo
Morris, o Asterix desenhado por Uderzo ou o Tintim desenhado por
Hergé. De uns tempos para cá a situação começou a mudar, mas ainda
funciona muito assim.

Frank Giroud, porém, decidiu mudar tudo.

Escritor de quadrinhos até então pouco conhecido, Giroud (nenhuma
relação com Jean “Moebius” Giraud) ofereceu à editora Glénat um
projeto ambicioso: Uma série em 10 volumes e com 10 artistas
diferentes, mas unida pelo roteiro e publicada em um espaço de
tempo pouco usual no quadrinho franco-belga (os 10 álbuns seriam
publicados em cerca de 2 anos, algo impossível nas séries assinadas
por um único artista).

O conceito era tão ambicioso quanto o projeto: Anos antes do Código
da Vinci, Giroud idealizou uma trama religiosa. Na história, o
profeta Maomé teria escrito (em uma omoplata de camelo) um decálogo
- ou seja, um conjunto de 10 mandamentos para a fé muçulmana, tal
como existe um para a fé cristã - que teria sido escondido dos
fiéis por seus sucessores, até, depois de um caminho longo e
turtuoso, chegar até nossos dias em uma versão romanceada, o Nahik,
que vai parar nas mãos de um escritor fracassado, que vê nessa
história uma chance de finalmente emplacar um sucesso.

Essa é a trama do primeiro álbum, sendo que os 10 álbuns
subsequentes recuam progresivamente no tempo até chegar ao “começo”
da trama, no tempo do próprio Maomé. Para além de se relacionarem
via a trama principal, os álbuns também têm como “tema” individual
cada um desses dez “mandamentos”. Um curioso desafio para o
escritor, mas será que ele conseguiu?

Bem, ao menos os dois que eu li até o momento foram bem
interessantes. Na França a série conseguiu vendas (acumuladas, bem
entendido) na casa dos milhões e já gerou dois spin-offs (estes
séries mais convencionais), todos escritos por Giroud que, no
processo, tornou-se um escritor conhecido (atualmente desenvolve
uma outra série de múltiplos artistas, mas dessa vez girando em uma
única trama com diversos pontos de vista, Le Quintett, para a
editora Dupuis, em cinco volumes).
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Depois de ler isso, claro que eu corri para o site de Glénat para conferir a parada e apesar do meu francês inexistente, além da premissa (e também da – com o perdão do trocadalho - gênese) bacana que o Pedro deu de bandeja aí em cima, a série é visualmente interessante. Pena que essas paradas não cheguem nem perto daqui.

March 15, 2006

INTEMPOL, AS HQS

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Todo mundo sabe que admiro muito a iniciativa e o projeto em si, e já que o assunto aqui é hq, somente isso e nada mais do que isso, já passou da hora de dar meus pitacos sobre o braço quadrinístico da Intempol, não?

THE LONG YESTERDAY, O ÁLBUM - Por Osmarco Valladão e Manoel Magalhães.

(já tinha publicado isso em meu outro blog, mas já que estamo falando dos quadrinhos da Intempol, não custa nada repetir)

No tocante aos quadrinhos, sou suspeitíssimo para falar, já que não é segredo para ninguém o pendor das minhas preferências estéticas pela arte sequencial, e, só para continuarmos no contexto, devo confessar que essa releitura se saiu muito melhor do que o conto original. Talvez pelo fato do roteirista, Osmarco Valladão, ser também o autor do conto, talvez pelo fato do próprio Osmarco ser designer, e também manjar de ilustração, talvez pela amizade de longa data entre ele e Manoel Magalhães, o desenhista.

O roteiro é econômico, preciso, e, principalmente, honesto. Segundo Osmarco, o objetivo era simplesmente fazer com que o leitor esquecesse um pouco da vida nos trinta e poucos minutos de leitura. Já a arte remete à escola européia (só não saberia dizer qual delas!) e resvala também no estilo difundido por Bruce Timm e companhia nos anos 90. Muito bonita. Além disso, Manoel é sucinto nas cores, mas usa isso a seu favor. E, claro, não poderíamos nos esquecer da qualidade gráfica do álbum, soberba para os padrões nacionais.

Uma curiosidade (ou infelicidade, dependendo do ponto de vista) é que, na época do lançamento, bastou o título em inglês para que as patrulhas ideológicas já entrassem em DEFCON 2, mas o que essa turminha parece desconhecer é a diferença abissal entre um pastiche e uma referência, ou melhor, homenagem. E fica claro, seja pela introdução assinada por Aragão, seja pela nota colocada por Osmarco ao fim do álbum, seja pela própria história, que o caso aqui é a segunda opção.

Dizem as lendas que vem mais coisa desse naipe por aí. É hora de cruzar os dedos.

A MORTÍFERA MALDIÇÃO DA MÚMIA.

O Projeto Intempol ganhou bastante visibilidade no mundo quadrinístico depois do lançamento de THE LONG YESTERDAY, a primeira graphic novel do projeto, mas o que a maiora não sabe é que anos antes os caras já tinham se aventurado no terreno das hqs, com uma história que, assim como THE LONG YESTERDAY, é uma adaptação de um dos contos presentes no primeiro livro lançado por eles. Contudo, existe uma diferença crucial: MMM (como é carinhosamente conhecida) é um Webcomic, com W maíusculo mesmo.

Uma coisa é se produzir uma hq dentro dos cânones normais, em termos de formato e narrativa, e depois utilizar a internet apenas como suporte. Outra é se produzir uma hq PARA internet, lançando mão de todos os recursos de que a rede dispõe. A equipe de criação, composta por Rodrigo Martins, Carlos Felipe Figueiras, Gustavo Novaes e Felipe Moura (não me pergunte quem fez o quê) realizou um trabalho redondinho. O roteiro, feito com o auxílio de Carlos Orsi Martinho, o autor do conto original, ficou na medida certa, e as redundâncias, muito comuns em adaptações de textos literários, se existem, a mim passaram despercebidas.

Já na parte gráfica, acho que os autores economizaram um pouco na hora de utilizar a palheta de cores, e nos traços. Acabei prefirindo a versão original à esta. O que não quer dizer que os quadrinhos sejam ruins, muito pelo contrário (como se minha opinião valesse alguma coisa, né?).

UM MUSEU DE VELHAS NOVIDADES

Essa seria mais um álbum da dinastia, com texto e diagramação de Octávio Aragão, autor do conto original, e arte de Bernard e Sandro, contudo, devido a diferenças editoriais, o projeto foi cancelado. Uma pena. Aqui estão os samples das primeiras páginas, e é possível notar a diferença gritante entre o traço de Bernard e o de Manoel Magalhães, desenhista de THE LONG YESTERDAY. Isso geraria um contra-ponto interessante. Quem sabe, num futuro próximo?

VIA CRUCIS

Disponível no site. Com roteiro de Octácio Aragão e arte de Antonio Nogueira, o destaque dessa pequena hq vai para a parte gráfica, totalmente fora dos padrões que se espera de uma hq de FC. O desenho de Nogueira é vivo, surreal e ele andou no fio da navalha ao experimentar tanto. Mas acertou. Executou com maestria algo que poderia ter ficado totalmente ridículo. Se não acreditam, dêem uma olhada na página 4. Não sei se estava no roteiro ou não, mas o último painel foi matador.

TREVO

Outra que está no site. Ralizada completamente por Octávio, utiliza o vasto leque de possibilidades de uma ucronia para contar uma boa e velha história de vingança.

February 24, 2006

BANG BANG, A CAIXA DE AREIA e HATTER M 1

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BANG BANG

Grata surpresa este álbum binacional, lançado primeiro nos states pra só depois dar as caras aqui. Já se falou muito dele pela rede, então vamos deixar de rodeios.

Como toda coletânea, a qualidade é heterogênea, mas o resultado final é mais do que satisfatório, principalmente no quesito arte. A distribuiçao das histórias está harmônica, com as quatro hqs grandes intercaladas pelas seis menores.

Das grandes, gostei muito de RIO ABAIXO, com roteiro de Ricardo Giassetti e arte de Fábio Cobiaco, e principalmente de UMA NOVA LIBERDADE, com texto Jeremy Nilsen e arte de Jefferson Costa, protagonizado pelo famoso escapista Harry Houdini. Muito legal.

Das menores, A PEIXARIA DA FAMÍLIA LAO, de Rafael Grampá é simplesmente fantástica, 4 páginas numa narrativa silenciosa com um traço belíssimo, que lembra muito - mas não emula - Geoff Darrow.

A CAIXA DE AREIA

Árido como o deserto habitado por Carlton e Kleiton. Só posso dizer isso da mais nova hq de Lourenço Mutarelli. Interessante é que todas as resenhas que li até então davam a impressão que o autor tava numa fase mais light, e uma página que vi na rede - a 19, para se mais exato – me convenceu mesmo dessa balela. Tudo mentirinha. Mutarelli, aqui, abandonou (ou apenas deixou de lado) as gorezices com as quais costumava povoar suas hqs, mas não perdeu a mão quando o assunto é causar aquele desconforto, aquele friozinho na barriga ao final da leitura, algo que domina tão bem. Mas a função da arte, ou Arte, ou ARTE, ou, whatever, é despertar emoções, não é mesmo?

Gostei do formato escolhido, gostei da história, gostei do traço e do acabamento interior, mas a devir continua ca#$%do no p#* no que diz respeito às capas. Não, não é da ilustração que tô falando, mas da qualidade gráfica mesmo. Porra, nem uma orelhinha!

HATTER M 1

Essa é uma daquelas compras circunstanciais que você acaba adorando ter feito. Comprei simplesmente por que tinha dinheiro na ocasião, e por causa da arte de Ben Templesmith. Se não tivesse a grana na hora, certamente não teria voltado para pegá-la quando os caraminguás surgissem.

Pelo que entendi, essa hq é uma espécie de interlúdio da série de livros THE LOOKING GLASS WARS. A premissa é pra lá de interessante: Hatter Madigan, o Hatter M. do título (um trocadilho óbvio com Mad Hatter, Chapeleiro Louco) é um garda-costas real, cuja missão era proteger a princesa Alyss, do País das Maravilhas, que agora está perdida em nosso mundo. Sim, é uma distorção da obra de Lewis Carrol, que também entra na jogada, através da Lewiss Carrol Society, grupo que sabe da existência do País das Maravilhas, mas quer a todo custo esconder o segredo da humanidade, através da, tá-dá!, ficção.

A história da hq começa com Hatter Madigan chegando em nosso mundo, à procura da princesa. O cara é um tipo de super-espadachim, que faz lâminas brotarem de todas as aberturas de seu casaco, cuja principal arma é o chapéu semi-sensciente, que se transforma em uma lâmina-bumerangue-com-cara-de-molusco bem esquisita. Além disso, pode ver o “creative glow” das pessoas e dos objetos, ou seja, coisas ou pessoas criativas são como faróis para ele. Hilária a parte onde um jovem Júlio Verne é confundido por ele com Leonardo da Vinci. A propósito, tudo se passa na Paris de 1859. Mas não se engane, em “nosso” mundo, mágos picaretas podem despertar zumbis antropófagos e coisas do tipo.

O roteiro é de Liz Cavalier e Frank Bedor, autor dos livros originais. E a arte, fodassa, é do Ben Templesmith. A edição tá muito bonita, tendo direito, inclusive, a excertos fictícios (um em francês!) de jornais da época.

Aqui tem uma entrevista com Frank Bedor.

E aqui, um preview da edição 2.

MANHWA??? QUÊ ISSO TIO? É DE COMER OU DE PASSAR NO CABELO?

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Quando CONCHU, o primeiro manhwa chegou ao Brasil, houve certo estardalhaço, mas não dei muita bola, pelo tema, que não me interessa muito. Mas foi engraçado saber num dia que uma editora estaria lançando somente este tipo de quadrinho em solo tupiniquim (ou melhor, focando sua linha editorial nesse produto) e, já no outro, encontrar exemplares dos seus dois primeiros títulos em tudo quanto é banca por onde passei. Até em parada de ônibus em beira de estrada eu vi.

E não deixa de ser curioso o fato de uma nova editora, a LUMUS, já ir chegando de sola no mercado, lançando dois títulos coreanos com distribuição da Chinaglia, assim, na velocidade da luz. Mas eu até fico feliz com isso, sabe? Um mercado ativo de hqs pode ser um bom sinal e significar oportunidades pro pessoal aqui da terrinha também.

Deixa eu sonhar, tá?

Bom, voltando ao que interessa, não existe nada que chame muito a atenção nos dois títulos iniciais da LUMUS.

PRIEST vai na linha do faroeste-sombrio, que não é necessariamente novidade: Mágico Vento, Jonah Rex do Lansdale e do Tim Truman, outras hqs do Lansdale, alguns rpgs e por aí vai. Ivan Isaacs vendeu a alma ao tinhoso pra poder voltar do mundo dos mortos e resolver umas pendengas por aqui. Sei que você já viu isso por aí, mas se a premissa fosse tão ruim assim, não tava sendo usada até hoje, peixe.

Hyung Min-Woo tem um traço bastante característico, frenético, e a parte visual me lembrou um pouco Hellsing, aquele anime doidão que passa no Animax. Além disso, a estrutura da história já foi entregue de bandeja na mandala que recorre durante todo o volume. Tipo video-game, tá ligado?

Gostei.

PLANET BLOOD não caiu muito em minhas graças. Talvez por tornar-se uma fantasia medieval bem da previsível após as primeiras vinte páginas (não parei pra contar, mas estimo que este primeiro volume tenha lá suas duzentas). Como já falei lá em cima, não sou muito chegado em fantasia não senhor. Existem as exceções, evidentemente, mas a balança aqui costuma pesar contra esse gênero específico.

O traço de Kim Tae-Hyung já é bem menos nervoso que o de seu companheiro aí de cima, e os desenhos são até bonitinhos, mas não desceu muito não.

O engraçado é que, pela proximidade geográfica e cultural, fica difícil dissociar esses quadrinhos de seus vizinhos japoneses, mesmo que as diferenças estejam a olhos vistos (Sacaram? Sacaram?).

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