OROBORO

October 12, 2006

ABBEYARD, DE SCOTLAND YARD

Capa - ridiculamente reduzida - de Abbeyard

(só consegui essa imagem mesmo, rapêize)

Sempre pensei que, depois de FROM HELL, qualquer hq que tentasse desconstruir o mito de Jack, o Estripador, estaria fadada a entrar pelo cano.

ABBEYARD DE SCOTLAND YARD, com roteiros de Viviana Centol e desenhos de Carlos Vogt, publicada originalmente na Itália em treze capítulos e agora lançada na Argentina num único catatau de 168 páginas, felizmente conseguiu me provar que estava errado. E o ingrediente que, além de responsável por essa minha mudança de opinião, ainda consegue manter a hq a quilômetros da obra do Makonheiro Mágicko de Northampton é um velho conhecido nosso: o humor. Negro.

Sente o drama (trecho extraído da introdução escrita por Carlos Vogt, pitorescamente traduzido por mim):

“Muito tempo depois, numa mostra de quadrinhos em Buenos Aires, ao passar entre um grupinho e outro, cumprimentando roteiristas e desenhistas, me encontrei com aquela amiga de minha prima Anelli. ‘Eu te conheço’, lhe disse, sem me recordar de seu nome, obviamente. Nos sentamos com um pessoal para tomar um café. Da conversa surgiu o assunto de que ela estava burilando uma história policial que se passava em Londres, no final do séc. 19. ‘Vai ser uma hq com muito sangue, putas e fantasmas. Os ingleses adoram fantasmas!’, assegurou, empolgada. ‘Eu não’, respondi, sério. ‘Me dão medo.’Viviana Centol olhou para mim, incrédula. ‘Mas…vai ser uma comédia’, achou melhor esclarecer. Acendi um cigarro, com a mão tremendo, e suspirei: ‘Ah. Menos mal.’”

Archibald Abbeyard – que tem sempre o sobrenome confundido com Abellard – é um arquivista da Scotland Yard, sem muitas perpectivas profissionais, que acaba se envolvendo com o caso de Jack, o Estripador, quando Belle, uma prostituta com quem mantinha uma… hã… bela amizade, acaba sendo morta pelo assassino de Whitechapel.

A diferença é que Belle, ao invés de ser extripada como as demais, é arremessada pela janela, o faz com que a polícia acabe descartando qualquer relação deste crime com os demais, preferindo acreditar na hipótese de suicídio. E a história terminaria assim, se o fantasma de Belle não voltasse para azucrinar Abbeyard até que ele concordasse em tentar descobrir a identidade de Jack (e seus motivos), para que ela pudesse descansar em paz.

O humor, pastelão, mas não excessivo, é bem dosado e Viviana constrói uma história bacana, com direito a identidade do assassino revelada (mas só no final). Final este, inclusive, que foge às convenções e também constitui um caso à parte.

Já o traço de Vogt - bem caretão (ou clássico), mas muito bonito - cai como uma luva nessa história vitoriana. Ele capricha nas expressões faciais e não poupa Abbeyard de ser retratado como o paspalho de bom coração que realmente é.
ABELLARD foi publicado pela Thalos Editorial e está saindo por 19,90$ (pesos argentinos).

July 28, 2006

UN TAL DANERI

Capa de UN TAL DANERI

Impressa num formatão pra lá de grande, em p&b com uns tons de cinza que achei cabulosos (e que até agora não sei se foram retículas bem vanguardistas para a época, ou se foi o bom e velho Photoshop), UN TAL DANERI, primeira colaboração entre o roteirista Carlos Trillo e a lenda argentina Alberto Breccia, “El Viejo”, já começa desconcertante por toda a expectativa que provoca.

São 8 histórias curtas, variando de 4 a 8 páginas, que contam a história de do tal Daneri (acharam que eu ia deixar passar essa, hein?), um gângster portenho que parece ser muito mais do que aparenta. Daneri, anagrama para Dante Alighieri, tem um faro especial para se meter em enrascadas e tragédias dignas de letra de tango. E os autores não negam que Borges foi a principal influência na hora de compor o personagem. Aí, já viu, né?

Das seis hqs, duas em especial (NÉLIDA e OJO POR OJO) são do tipo tapa no ouvido. Mas, apesar de eu ser fanzaço do Trillo, tenho que admitir que quem conduz tudo é mesmo Breccia. O palco principal é Mataderos, bairro de Buenos Aires muito caro a Breccia, e as histórias se passam numa época indeterminada.

O personagem só tem essas histórias, publicadas aos pouco, originalmente entre 1974 e 1978, em diversas revistas, argentinas e italianas, e esse álbum é a primeira reunião de todo o material no mesmo lugar. Segundo os autores, só não houve continuidade porque ninguém se interessou em continuar publicando. Mas todas as histórias são autocontidas.

A edição conta ainda com uma matéria introdutória e alguns esboços. Vale a pena.

O único senão fica pela curiosidade de saber até onde os dois autores teriam levado o personagem, caso tivessem seguido com ela.

P.S.: A série HISTÓRIETAS ARGENTINAS vai continuar assim agora, aos poucos, a medida em que eu for lendo o material. Decidi que fluirá melhor dessa maneira.

February 16, 2006

HISTORIETAS ARGENTINAS - PARTE 1.5

A parte 2 tá demorando, eu sei, mas ainda não consegui ler o material que está programado para dar as caras por lá. Em compensação, consegui colocar minhas mãos em mais hqs argentinas. Encontrei um encadernado com a primeira parte de BORDERLINE, hq cyberpunk de Trillo e Risso - que a Dynamic Forces ficou de lançar isso nos states ano passado - assim como um compilado de UN TAL DANERI, de Trillo e Breccia Pai, com várias hqs, textinho introdutório e seção de bocetos (esboços, seus malandrinhos). De qualquer maneira, os comentários virão só depois. O que interessa no momento é que também consegui algumas edições mais recentes de revistas que eu havia comentado na parte 1.

BASTION UNLIMITED 3 e 4

Edição 3

O mix é o mesmo, com a adição de mais uma série, ANGELA DE LA MORTE, e de outra historinha tapa-buracos, PASOS DE COMEDIA.

Das hqs importadas, a revista traz três hqs curtinhas de SIN CITY: O CLIENTE SEMPRE TEM RAZÃO e E ATRÁS DA PORTA NÚMERO TRÊS…, que já foram publicadas por aqui, no especial A DAMA DE VERMELHO, que a funesta Pandora lançou em 2000, e uma outra, com os dois assassinos eruditos Fat Man e Little Boy. Essa eu não sei se saiu (trava língua para notívagos) no Brasil. Note que eu parei de acompanhar a série na época da Pandora. Também tem a metade da segunda edição original de CHOSEN, em p&b, que vai ser publicada pela Mythos, conforme anunciado.

Já na produção nacional (deles), temos, como eu disse lá em cima , PASOS DE COMEDIA, com roteiro de Roberto Andrés Pulitano e arte de Rodrigo Luján, que não é ruim, de qualquer maneira. É uma história quase muda, ao que parece baseada num caso real. O roteiro é preciso, e o traço de Luján agrada. Mas faltou algo.

O segundo capítulo de DALLILAH continua chamando mais atenção pelos desenhos do que pelo roteiro.

Contudo, no também segundo capítulo de EL HOMBRE PRIMORDIAL, a história é outra, com o perdão do trocadilho. Os roteiros de Mauro Mantella já tinham caído no meu gosto desde o primeiro capítulo, mas nesse aqui fica claro que o cara tem é talento mesmo. Além disso, o traço de German Erramouspe não fica atrás e o cara mostra serviço. Nesse capítulo, Máximo Redland, o Homem Primordial, descobre um pouco mais sobre seus poderes, além de ter um encontro inusitado na última página. Mas esse capítulo serve apenas de prelúdio para o que vem na sequência.

E a surpresa ficou para ANGELA DE LA MORTE, escrita e desenhada por Salvador Sansz. É uma versão cyberpunk de LINHA MORTAL (lembra desse?) e acho que não há melhor maneira de explicar do que copiar aqui a recapitulação que está no segundo capítulo, na edição 4.

Para leer esta historieta, usted debe enterarse de los tres descubrimientos que realizó el Doctor Sibeliuz:

1) Mediante un procedimiento médico, se puede separar el alma del cuerpo y tanspantarla a otro cuerpo con vida, pero sin alma: um desalmado.

2) El alma fuera del cuerpo sólo sobrevive durante 35 minutos, a causa del tercer descubrimiento.

3) La muerte existe como forma de vida, y se mueve en su proprio ecosistema, donde es el máximo predador: se alimenta de las almas que vagan fuera del cuerpo. 35 minutos es el tiempo que tarda en encontrarlas.

Esse primeiro capítulo serve de introdução para a série, que pode ser resumida como: “agentes secretos têm suas almas trocadas de corpo, cumprem as missões, dão o fora dos seus corpos de mentirinha (invariavelmente através do suicídio) e tratam de voltar rapidinho pros corpos originais, antes que a morte, que parece mais uma água-viva ectoplásmica, inclua-os no cardápio do dia”.

Parece ridículo, mas não ficou não, viu?

Interessante é o modo como as agências rivais induzem a quase-morte dos seus agentes: a primeira, da qual Angela faz parte, opta por uma forca high-tech. A segunda já utiliza algo que parece uma banheira.

Em tempo 1: esqueci de comentar que tem materiazinha sobre o Conan.

Edição 4

De novo, do lado de lá, mais duas curtinhas de SIN CITY. A FILHINHA DO PAPAI e RATOS. A primeira publicada no especial APENAS OUTRA NOITE DE SÁBADO (e, curiosamente, suprimiram as poucas cores nessa versão), a segunda, não faço a mínima idéia se teve versão nacional ou não. Mais um capítulo de CHOSEN, equivalente à segunda metade da segunda edição original.

E do lado argentino, o derradeiro capítulo de DALLILAH, que já foi tarde.

Na terceira parte (de 6, conforme anunciado) de EL HOMBRE PRIMORDIAL, Máximo, após descobrir que é a 457º reencarnação de Adão - e eu só contei isso porque tá lá no release da editora - começa a se interar mais de seu papel na trama, que começa, vejam só, no Brasil. Eu tô babando o ovo dessa dupla, porque os caras sabem o que fazem, desde os pequenos detalhes, como, por exemplo, o símbolo da maçã, que teima em aparecer de tudo quanto é jeito justo na história onde Max descobre-se uma versão moderna de Adão, até na pesquisa, onde Mantella desfia uma teoria bíblica que não sei se tirou de algum evangelho apócrifo ou de sua cabeça. De um jeito, ou de outro, é interessante assim mesmo. E a construção da histórias, sempre em 12 páginas, que valem mais do que muita de 22 que se vê por aí. Recomendo, e recomendo de novo.

ANGELA DE LA MORTE, também tem estrutura fixa, 11 páginas por história. Nessa história, conhecemos um pouco do passado de Angela, além de ser introduzido mais um antagonista. E, pra completar, tem gancho no final. É esperar pra ver.

Em tempo 2: esqueci de comentar que tem materiazinha bacana sobre o Aeon Flux (as animações e o filme).

VÍRUS 3

Dizem minhas fontes portenhas que foi a derradeira e no site da editora já não há menção ao título. E eu até entendo o motivo.

O problema, a meu ver, foi que eles insistiram na fórmula que acreditavam ser seu maior mérito, mas que eu sempre vi como ponto fraco: a diversidade. Ter um leque variado, mas dentro de gêneros que costumam andar de mãos dadas, como terror+ficção, ou fantasia+ficção, por exemplo, é muito mais proveitoso do que se enfiar numa revista qualquer hq que dê na veneta dos editores. Pô, nessa edição tem hq de humor, terror trash, terror que se diz sério mas também é trash, fantasia medieval, fantasia gótica (alguém aí disse Vertigo?), espionagem, policial, ficção científica, drama e sei lá mais o quê. Já gostei muito de revistas que também serviam esse tipo de salada (ANIMAL, CIRCO, etc), mas hoje não me descem muito bem.

Várias hqs estão de volta: ABBADON apareceu no número 1, assim como EL EFECTO RAMSES, ANGIE e MOTOQUERO. IMPERIO SOLAR (que eu gostei), já tinha aparecido no número 2 e Q-BIL, MIL NAVES FANTASMAS e ESLABONES são séries regulares.

Uma, que eu achei bacana, justamente por chutar o pau da barraca, foi BOWLING SANGRIENTO, texto e desenhos de Setro. ESLABONES, de Mr. Exes, também mantém o ritmo.

Além disso, a edição conta com uma matéria sobre a trajetória dos Ramones nas hqs.

Se a revista tiver acabado mesmo, é pena, porque é um espaço a menos. Mas é interessante notar como as grandes editoras, sejam daqui, sejam de lá, sempre metem os pés pelas mãos quando querem entrar de sola no mercado de quadrinhos.

Em tempo 3: E a capa seguiu o padrão boazuda photoshopada. Trabalho constrangedoramente ruim, se querem saber.

Em tempo 4: Na verdade, a matéria não fala da trajetória dos Ramones nas hqs, e sim de hqs que contam a trajetória dos Ramones, mais precisamente a coleção WEIRD TALES OF THE RAMONES, lançada ano passado num box chiquérrimo com cds, dvd e o escambau. Viu como a ordem dos fatores altera o resultado?

January 2, 2006

HISTORIETAS ARGENTINAS - PARTE 1

Em minhas andanças pelo lado de lá do Rio da Prata, uma das coisas com que me encasquetei foi saber mais sobre o quadrinho argentino, e nada melhor do que uma pesquisa de campo (eufemismo para “torrar todo o meu rico dinheirinho!”), mas o tempo exíguo e minha total inépcia em localizar o equivalente de uma comic shop (a título de curiosidade: lá se chamam comiquerias) em tempo hábil não me deixaram ir fundo em minha empreita, para o bem do meu orçamento doméstico, seja dita a verdade.

Não encontrei tanto material assim - por não ter tido oportunidade de procurar, notem - e também esbarrei com muitas hqs que não me chamaram a atenção, mas nesses poucos títulos já dá pra se notar uma diversidade bacana, que não deixa dúvidas que o povo de lá é tão ou mais eclético que o daqui no que diz respeito à nossa adorada, salve!, salve!, Nona Arte.

A intenção era falar de tudo ao mesmo tempo agora, numa batelada só (redundância com fins exclusivamente dramáticos), mas ainda não consegui ler essa papelada toda, então, vamos que vamos, em doses homeopáticas, devagar e sempre, como disse a Tartaruga (ou teria sido o Coelho?)

VIRUS

A VIRUS foi lançada em Junho desse ano, publicada pela Editorial Perfil e causou um certo estardalhaço por lá, tendo até comercial veiculado na TV (tá certo, eu só vi uma vez, mas que teve, teve). É uma revista mix, formato magazine, 100 páginas, com qualidade gráfica muito boa e um preço convidativo ($7,90, com o Peso valendo 0,85 centavos de Real na época, algo em torno de R$ 6,70). Além disso, ainda conta com matérias em seu miolo. Na primeira edição, uma que fala sobre o curta de animação El Corazón Delator, de Raúl Garcia, que mistura na mesma panela Alberto Breccia, Poe e Bela Lugosi; outra sobre Batman Begins, lançado naqueles tempos, e a última é sobre o Encuentro de la Historieta Argentina, obviamente, um evento ocorrido por lá.

Como toda “boa” coletânea que tenta agradar a gregos e troianos, erra feio em não tentar manter sua diversidade temática dentro de certos limites. O material, na primeira edição, tá de regular para baixo, e as únicas histórias realmente interessante são ONI BLUES, de Calvi!, e 1000 NAVES FANTASMAS de Febo e Marcelo Garcia (roteiro e desenhos, respectivamente). Outro ponto contra é o editorial, minúsculo, onde se limitam a falar das virtudes da revista, sem se importar em situar o leitor sobre as propostas da mesma e tal.

Além disso, eles quiseram criar uma padrão heavy-metálico para as capas, colocando boazudas photoshopadas e, bem, acho que seria melhor ficar só com as meninas mesmo, porque os efeitos, até meu filho de um ano e meio faz melhor.

Já na segunda edição, de Agosto, o retorno de algumas hqs deixa evidente que a revista também vai publicar algumas séries:

1000 NAVES FANTASMAS (Febo e Garcia): O ano é 2666, os oceanos não existem mais e o que sobrou da Resistência Sul-Americana luta desesperadamente contra a Asia-Normandia, numa guerra que se estende há mais tempo do que podem se lembrar. Na primeira história (Virus 1), um pelotão argentino se suicida misteriosamente, numa região que eu sinceramente não consegui distinguir se é a Patagônia ou o solo lunar. Na segunda (Virus 2), um analista do ministério da defesa Sul-Americano, começa a juntar os pontos sobre o incidente envolvendo o tal pelotão, enquanto uma providencial narração em primeira pessoa nos esclarece mais sobre o cenário. Nada inesquecível, mas me deixou curioso o suficiente pra querer saber onde a história vai parar.

Q-BIL (Hernandes e Schümperli): Dois caras são enviados pelo espaço-tempo, até chegarem a Siracusa de Aquimedes, e entre uma traquinagem e outra, dão uma “força” ao sábio no que diz respeito a algumas invenções (é, do Raio da Morte também), enquanto ajudam a manter os invasores romanos afastados. Engraçadinha, mas não curti muito os desenhos.

PRIMIGÊNIOS (Arce - embora seja uma criação de Sanyu, que eu não faço a mínima idéia de quem seja): Uma série de pequenas hqs de duas páginas, mostrando a vida de nossos ancestrais das cavernas. O interessante é que essa hq não é desenhada. É uma espécie de fotonovela, ou stop-motion, com bonequinhos de massinha, o que dá um efeito bem interessante. Pena que fica totalmente deslocada no miolo da revista.

ESLABONES (Mr. Exes): Eu gostei da arte desse cara. A primeira história não passa de uma adaptação de uma piada de mau-gosto, cujas variantes todos nós já devemos ter ouvido/visto em algum lugar.. Mas os desenhos nervosos e geométricos me agradaram. A segunda (Virus 2) já ficou mais interessante, com o personagem que aparece só no final da primeira história (pra servir de gancho) sendo o protagonista dessa aqui, numa situação, eu diria, inusitada. Mas essa é outra que ficou deslocada na revista.

EL LORITO: Sempre “encartada” no meio de alguma das matérias, mais uma de humor que não fez muito minha cabeça.

Eu disse que as três últimas histórias/séries ficaram deslocadas na revista, mas se formos analisar friamente, a proporção de gêneros diferentes está até balanceada, sendo o problema, a meu ver, as capas, que evocam um tipo de publicação a que talvez o conteúdo não corresponda. Acho que muito do material que eu considerei fraco funcionaria melhor ao lado de outros trabalhos do mesmo gênero. A leitura sequênciada de histórias abrigadas sob diferentes bandeiras fragmenta um pouco o “clima”. Daí a má impressão, acho. Além disso, muita coisa ali parece ser material de gaveta, produzido, na certa, sob outros contextos, momentos, etc., etc.

A segunda edição, de Agosto, incorre nos mesmos erros da primeira (capa, editorial, seleção de material, etc), mas também tem as mesmas poucas virtudes. Nas matérias, uma (com uma foto hilária) sobre o engajamento das grandes editoras americanas (leia-se: Marvel) na guerra do Iraque, outra sobre Sin City, o filme, e a terceira sobre o evento de lançamento da primeira edição, onde o editor finalmente explica-se sobre a motivação da publicação - fazer os quadrinhos voltarem aos “kioscos”, termo mais genérico do que o nossa, “banca”. Devido à crise econômica e mais outros fatores, parece que as hqs andaram meio sumidas por lá e estão voltando com certo vigor só de um ano pra cá.

Contudo, existe uma surpresa neste número 2, que por sí só faz todo o resto valer a pena: …SU NONBRE SERA ARGENTINA (de Casanova e Raarte), onde um Jorge Luís Borges recentemente cego confidencia a seu truta de longa data, Bioy Casares, um segredo a respeito da independência Argentina, descoberto num diário doado por um nobre inglês, o último livro que conseguiu ler. A história alterna-se entre 1806 e 1957, e os desenhos de Rearte são fantásticos, meio expressionistas, totalmente P&B nas cenas de 57, enquanto nos flashbacks de 1806 ele usou uma técnica aquarelada com tons de cinza que ficou bem bonita. E quanto ao roteiro de Casanova, sem comentários. Aventura, conspirações e lições de história em 23 páginas. Ficou tudo meio corrido (e um pouco confuso, se você, como eu, não manja bulhufas de história Argentina. Mas nada que o Google não resolva), e talvez se eles tivessem mais páginas, o resultado poderia ter ficado ainda melhor, mas eu achei muito boa a condução e a narrativa dos caras. Não falemos mais para não estragar a história.

BASTION COMIX

A Bastion, publicada pela Gargola Ediciones, lançada no início do ano passado, é outra revista que se utiliza do formato mix, contudo, essa tem mais acertos - e um objetivo editorial mais definido - do que sua irmã mais nova aí de cima. A revista custou $6,90, tem formato americano, lombada quadrada, 80 e poucas páginas (não estão numeradas e eu não contei), e uma qualidade gráfica muito boa, embora inferior à da Vírus.

De sua primeira encarnação, só consegui a número 4 (Abril de 2005), que, por sinal, encerrou a primeira fase da revista, que só publicava material argentino (com exceção de uma hq escrita pelo Chuck Dixon). Nessa edição em especial, destaco as histórias, LAS ESPADAS DE JEAN-JAQUES, a gozadíssima AÑOS 30, e SER Y TIEMPO.

Mas como disse, esse foi o canto do cisne da publicação, ou melhor, de sua primeira fase, que, em Junho do mesmo ano, surgiu metamorfoseada em BASTION UNLIMITED. As mudanças foram, além da turbinada no preço (agora $7,90 - mesmo assim bem em conta, visto os similares nacionais que temos por aqui), a qualidade do papel, que ficou bem mais nobre, e se eu soubesse a diferença entre um tipo e outro, arriscaria dizer que é um couché. Além disso, a revista traz uma diferença crucial em seu conteúdo: a partir da edição 1 dessa nova fase, o material argentino passaria a dividir as páginas com material gringo, oriundo, até agora, da Dark Horse. E o número de histórias por edição reduziu-se. O line-up da primeira traz, de fora, uma hq da série SIN CITY (APENAS OUTRA NOITE DE SÁBADO) e CHOSEN, de Millar e Gross, que sabe-se lá porque, foi dividida ao meio, ou seja, cada edição da UNLIMITED traz metade (12 páginas) de uma edição original. Do material argentino, temos INSOMNIO, aventura totalmente insípida do super-herói Rancat, EL APRENDIZAJE DE MIKA, com desenhos bacanas, e uma história legalzinha, e por último, EL FUTURO FUE AYER, essa sim maluquíssima, cheia de maneirismos a lá Grant Morrison , que eu tinha imaginado ter sido homenageado de maneira velada, mas, para minha surpresa, na última página os autores entregam o jogo e percebe-se que eles estavam sob os auspícios do escocês careca todo o tempo. Dessa eu gostei muito.

Outra diferença da UNLIMITED em relação à COMIX, é que a primeira traz matérias. Na edição 1, a saga STAR WARS, inclusive com uma linha do tempo envolvendo quadrinhos, livros, desenhos, e como não poderia deixar de ser, os filmes.

A edição 2 da UNLIMITED (que ainda não está no site) foi lançada em Agosto, e além de outra aventura de SIN CITY (dessa vez A DAMA DE VERMELHO), e da segunda parte do primeiro número de CHOSEN, a revista ainda tem uma matéria sobre o onipresente SIN CITY, o filme. E entre o material argentino, duas novidades, ou melhor séries.

DALLILAH é sobre uma super-soldado num cenário pós-apócalíptico-feudal-low(high)tech. Talvez o mote seja meio batido, mas a arte de Cesar Carpio Guerra é do grande caralho. “Atrapante”, como dizem por lá.

E temos também a excelente EL HOMBRE PRIMORDIAL, que mescla supers, cabala e ainda é um pequeno tratado sobre a Trissomia 21, vulgarmente conhecida como Síndrome de Down. E isso tudo em 12 páginas! Mauro Mantella dá uma aula de roteiro, e eu vou ficar de olho nesse cara.

CALLEJONES ROJOS

Editado em Abril de 2005 pela De Los Cuatro Vientos Editorial, que, ao que parece, tem algo a ver com a Gárgola Ediciones - que publica a Bastion, só pra gente não se perder -, esse álbum também foi uma surpresa. Um grata surpresa, digo. É a história de Salvador e Gyn, duas crianças envolvidas inadvertidamente com o mundo do crime na Buenos Aires dos anos 70. Um ponto legal é que a história começa mesmo na Paris ocupada de 1942, e que esse pequeno detalhe reverbera algo que é muito forte na cultura argentina, mas se eu contar mais vou acabar estragando uma eventual surpresa. O roteiro é de Silvia Debor e a arte é de Ignacio Rodríguez Minaverri, que tem um traço que me lembra bastante o Mazzuchelli pós-Marvel. Mas digo isso mais pela falta de outros referenciais do que por conhecimento de causa. De qualquer maneira, importa é que agrada aos olhos.

Outro detalhe relevante: é um álbum P&B, com 128 páginas, impresso num papel muito bom, lombada quadrada e o escambau, e custa 10 pesos (menos de dez reáu, rapá!). Tenho batido na tecla dos preços aqui por que talvez seja possível aprender alguma coisa com nuestros hermanos no que diz respeito a esse assunto tão delicado no reino das hqs.

Bom, por hoje é só.

Después: COMIQUEANDO, CLARA DE NOCHE, CHICANOS, PARQUE CHAS, LOVERCRAFT, ANIMAL URBANO, TONY, EL ETERNAUTA e EL CAZADOR.

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